Líder do Afeganistão admite que país recebeu dinheiro do Irã

Hamid Karzai confirmou denúncia de jornal americano, mas alegou que processo foi 'transparente'.

BBC Brasil, BBC

25 de outubro de 2010 | 14h33

Influência iraniana no governo de Karzai gera preocupações

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, confirmou nesta segunda-feira que seu chefe de Gabinete, Umar Daudzai, recebeu dinheiro do Irã, mas insistiu em que o ato foi "transparente" e de conhecimento dos Estados Unidos.

A fala de Karzai foi uma resposta a uma reportagem do jornal americano The New York Times, que dizia que Teerã entregou sacolas de dinheiro a Daudzai com o objetivo de promover interesses iranianos no Afeganistão, assegurar a lealdade de políticos e comprar líderes tribais.

Karzai cirticou a reportagem e disse que os repasses não eram destinados a indivíduos, e sim para ajudar a pagar despesas do governo.

"Recebemos pagamentos de diversos países amigos. Isso foi discutido com o (ex-)presidente (dos EUA George W.) Bush. Não é nada escondido", declarou, em entrevista coletiva. "Somos gratos pela ajuda. Os Estados Unidos fazem o mesmo, dão ajuda para alguns de nossos gabinetes."

Seu governo continuará a receber o dinheiro iraniano, que, disse

Karzai disse que o dinheiro iraniano, que totaliza entre R$ 1 milhão e R$ 1,6 milhão, é recebido "uma ou duas vezes ao ano" e continuará a ser aceito pelo governo afegão.

A reportagem do New York Times ouviu fontes que alegam que Daudzai recebeu do Irã o equivalente a até R$ 3,4 milhões em alguns meses. O interesse iraniano seria afastar Cabul dos países da Otan.

Prática 'comum'

Quentin Sommerville, correspondente da BBC News em Cabul, analisa que a admissão de Karzai não chega a ser surpreendente diante da dependência afegã do dinheiro estrangeiro, mas pode influenciar outros apoiadores do Afeganistão, já preocupados com a corrupção no governo e a crescente influência de Teerã.

Francesc Vendrell, ex-enviado da União Europeia ao Afeganistão, afirmou que pagamentos ao governo afegão são prática comum e um atestado do "fracasso" do Ocidente em estabelecer um governo funcional no país asiático.

"Muitos países que querem influência estão oferecendo dinheiro para o gabinete presidencial no que eu chamaria de um fundo para usos ilícitos. Os americanos estão na vanguarda (de oferecer pagamentos). Então, não estou surpreso que os iranianos estejam fazendo o mesmo", disse Vendrell à BBC.

A Embaixada do Irã em Cabul negou nesta segunda-feira o conteúdo da reportagem do New York Times, descrevendo-o como "ridículo" e "especulações sem base para prejudicar os laços bilaterais".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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