Líder do Egito pós-Mubarak faz na ONU apelo contra intervenção na Síria

Do púlpito da Assembleia-Geral da ONU, o primeiro presidente eleito do Egito, Mohamed Morsi, afirmou ser uma "vergonha" a ocupação dos territórios palestinos, condenou o derramamento de sangue na Síria - embora rejeitando qualquer possibilidade de uma intervenção externa - e defendeu um Oriente Médio livre de armas nucleares.

GUSTAVO CHACRA , CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2012 | 03h04

Os protestos anti-EUA no Egito também entraram no discurso, com Morsi dizendo respeitar a liberdade de expressão, mas acrescentando ser necessária uma ação internacional para conter a islamofobia em países do Ocidente. O líder egípcio silenciou sobre acusações de que há uma escalada do sentimento anti-Israel e de perseguições a cristãos em seu país. "As obscenidades publicadas recentemente como parte de uma campanha organizada contra o islamismo são inaceitáveis e requerem uma posição firme", afirmou Morsi ao se referir ao vídeo que insulta o profeta Maomé. "Temos a responsabilidade neste encontro internacional de estudar como proteger o mundo da instabilidade e do ódio."

Segundo o presidente, "o Egito respeita a liberdade de expressão, mas uma que não seja usada para incitar o ódio". A afirmação foi uma resposta à declaração de anteontem do presidente americano, Barack Obama, que do mesmo púlpito condenou o vídeo anti-Islã, mas defendeu a liberdade de expressão conforme consagrada na Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

Sobre a questão palestina, Morsi criticou duramente "o mundo livre por aceitar, independentemente das justificativas oferecidas, que um membro da comunidade internacional continue negando o direito de uma nação de conseguir a sua independência", em referência a Israel - que ele não citou nominalmente em nenhum momento.

De acordo com Morsi, "é uma desgraça a continuação dos assentamentos nos territórios desse povo (palestino)". "Eu peço imediatas e significativas medidas para acabar com a colonização (dos territórios palestinos) e a alteração da identidade de Jerusalém ocupada".

Egito e Israel assinaram um acordo de paz há mais de três décadas, mas as relações entre os dois países se deterioraram desde a queda de Hosni Mubarak, no início de 2011. O premiê Binyamin Netanyahu fala hoje na ONU, assim como o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Para a maioria dos israelenses, Jerusalém é a capital indivisível de seu Estado. Os palestinos reivindicam a parte oriental, de maioria árabe, como a capital de um futuro Estado.

Mais grave do que a situação na Palestina, para Morsi, é a situação na Síria. "O derramamento de sangue e a crise humanitária precisam ser interrompidos", disse. "Nós, egípcios, estamos comprometidos em colocar um fim a essa catástrofe", acrescentou, mas afirmou ser "contra uma intervenção militar externa".

No fim de seu discurso, Morsi levantou mais uma vez a bandeira de um "Oriente Médio livre de armas nucleares" e considerou necessária uma conferência internacional sobre esse assunto "ainda em 2012".

Morsi afirmou que todos os países deveriam ser signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Os israelenses não assinaram o tratado e, por esse motivo, não estão sujeitos a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, diferentemente do Irã, que é signatário. Oficialmente, Israel não nega, mas também não admite ter armamentos atômicos. No entanto, há um consenso na comunidade internacional, incluindo nos EUA, de que Israel mantém arsenais atômicos.

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