Noah Berger/ AP
Noah Berger/ AP

Líder do grupo Proud Boys, envolvido na invasão do Capitólio, foi informante do FBI e da polícia

Transcrição de um processo judicial de 2014 mostra que Enrique Tarrio tem histórico de colaboração com autoridades e ajudou a processar pessoas

Aram Roston, Reuters

29 de janeiro de 2021 | 09h00

WASHINGTON - Enrique Tarrio, líder do grupo de extrema direita Proud Boys, tem um passado como informante do FBI, a polícia federal americana, e da polícia da Flórida. Ele trabalhou sob disfarce, em diversas ocasiões, para investigadores depois de ser preso em 2012. É o que mostra uma transcrição de um processo judicial federal de 2014 obtida pela Reuters e confirmada por uma promotora que atuou no caso.

Tarrio lidera desde 2018 o Proud Boys, que participou da invasão do Capitólio em 6 de janeiro, instigada pelo então presidente Donald Trump para tentar barrar a homologação da vitória de Joe Biden pelo Congresso.

Pelo menos cinco integrantes do grupo estão sendo processados por tomar parte da invasão. Tarrio não está entre eles, pois havia sido preso dois dias antes pela polícia de Washington, acusado de destruir uma faixa do movimento Black Lives Matter. Ele teve que deixar a cidade e aguarda uma audiência judicial em junho.

Na audiência realizada em Miami em 2014, uma promotora federal, um agente do FBI e o próprio advogado de Tarrio descreveram seu trabalho como informante e disseram que ele ajudou as autoridades a processar mais de uma dúzia de pessoas em vários casos envolvendo drogas, jogos de azar e contrabando de pessoas.

Tarrio, em entrevista à Reuters na última terça-feira, negou ter trabalhado disfarçado ou cooperado em processos contra terceiros.

“Não sei de nada disso. Não me lembro de nada disso”’, disse ele, quando questionado sobre a transcrição.

Os agentes da lei e a transcrição do tribunal contradizem a negativa. Em uma declaração à Reuters, a promotora federal que atuou no caso de Tarrio, Vanessa Singh Johannes, confirmou que “ele cooperou com as forças de segurança locais e federais”.

A transcrição de 2014 traz uma nova luz sobre as conexões anteriores de Tarrio coma polícia. Durante a audiência, a promotora e o advogado de defesa de Tarrio pediram a um juiz que reduzisse a pena de prisão dele e de dois co-réus. Eles haviam se declarado culpados em um caso de fraude relacionado à reclassificação e venda de kits de teste de diabetes roubados.

O promotor disse que as informações de Tarrio levaram ao julgamento de 13 pessoas sob acusações de crimes federais em dois processos diferentes e ajudaram as autoridades locais a investigar uma quadrilha de jogos de azar.

O então advogado de Tarrio, Jeffrey Feiler, disse no tribunal que seu cliente havia trabalhado disfarçado em várias investigações, uma envolvendo a venda de esteroides anabolizantes, outra a "venda de narcóticos no atacado" e uma terceira visando o tráfico de pessoas. Ele disse que seu cliente ajudou a polícia a descobrir três locais de cultivo de maconha e foi um cooperador “prolífico”.

No caso do contrabando, Tarrio, “por sua própria conta e risco, se encontrou e negociou o pagamento de US$ 11 mil (cerca de R$ 60.000) a membros daquela quadrilha para trazer parentes fictícios de outro país”, disse o advogado no tribunal.

Em uma entrevista, Feiler disse que não se lembrava de detalhes do caso, mas acrescentou:

“As informações que forneci ao tribunal foram baseadas nas informações fornecidas a mim pelas autoridades policiais e pela promotora.”

Um agente do FBI na audiência chamou Tarrio de “peça-chave” nas investigações da polícia local envolvendo maconha, cocaína e MDMA ou ecstasy. O escritório do FBI em Miami não quis comentar.

Tarrio reconheceu na terça-feira que sua sentença por fraude foi reduzida de 30 para 16 meses, mas insistiu que a leniência foi concedida apenas porque ele e seus co-réus ajudaram os investigadores a “esclarecer” questões sobre seu próprio caso. Ele disse que nunca ajudou a investigar outros.

Esse comentário contrasta com as declarações feitas no tribunal pela promotora, seu advogado e o FBI. A juíza do caso, Joan A. Lenard, disse que Tarrio “prestou assistência substancial na investigação e processo contra outras pessoas envolvidas em conduta criminosa”.

O Proud Boys, fundado em 2016, começou como um movimento de protesto contra o politicamente correto e o que considera restrições à masculinidade. O grupo se envolveu em combates de rua com manifestantes antifascistas e se tornou um forte apoiador do ex-presidente Donald Trump, que em um debate da campanha presidencial se recusou a se distanciar do movimento, pedindo que eles "recuassem e ficassem de prontidão".

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