TV AFP PHOTO / AL-MANAR
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Hezbollah acusa sauditas de declarar guerra ao Líbano com prisão de premiê

Líder da milícia xiita afirma que Riad está por trás de renúncia de Hariri e denuncia ‘intervenção sem precedentes na política libanesa’; disputa extrapola fronteiras do país e ameaça tornar-se mais um confronto indireto entre sauditas e iranianos

O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 15h38
Atualizado 10 Novembro 2017 | 21h26

O líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, acusou nesta sexta-feira, 10, a Arábia Saudita de declarar guerra contra o grupo xiita e contra o Líbano. Em um duro pronunciamento ao vivo na televisão libanesa, Nasrallah também disse que os sauditas forçaram a renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, e o mantêm detido.

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“É uma intervenção sem precedentes na política do Líbano”, disse Nasrallah. “Está claro que a Arábia Saudita declarou guerra ao Líbano e ao Hezbollah.”

A crise no Líbano agravou-se nos últimos dias. O que parecia ser apenas uma disputa interna de poder tornou-se rapidamente um possível estopim de mais um confronto regional entre Irã e Arábia Saudita, as duas potências que há mais de uma década disputam a hegemonia no Oriente Médio. 

Em uma viagem a Riad, no sábado, Hariri renunciou inesperadamente ao cargo de primeiro-ministro, e não voltou mais ao Líbano, apesar dos inúmeros apelos do presidente, o cristão maronita Michel Aoun. Ao justificar sua renúncia, o premiê disse que temia ser assassinado e acusou o grupo xiita Hezbollah e seu aliado Irã de controlarem o Líbano.

O governo saudita diz que Hariri é um homem livre e não teve nada a ver com sua decisão de anunciar sua renúncia em Riad. Depois do anúncio, a Arábia Saudita acusou o Líbano e o movimento Hezbollah de declararem guerra aos sauditas. Riad advertiu aos cidadãos sauditas a não viajar ao Líbano ou saiam de lá assim que possível.

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Historicamente instável por causa da sua sociedade sectária, onde vivem sunitas, xiitas, cristãos e drusos, o Líbano criou um sistema de governo para impedir uma nova guerra civil como a que castigou o país entre 1975 e 1990. O sistema de governo, concebido para que todos os grupos sejam representados, prevê um presidente cristão maronita, um premiê sunita e um presidente do Parlamento xiita. 

Nos últimos anos, com a crescente luta pela hegemonia regional travada entre a monarquia sunita da Arábia Saudita e o Irã xiita, o Líbano se tornou a principal peça em disputa no tabuleiro do Oriente Médio. Os dois países apoiam lados rivais em conflitos no Catar, na Síria e no Iêmen. A situação piorou no começo do mês, quando um míssil foi disparado do Iêmen contra o aeroporto da capital saudita – o projétil foi interceptado. No Iêmen, rebeldes houthis xiitas, apoiados pelo Irã, lutam contra o governo sunita, aliado de Riad. O governo saudita acusou o Hezbollah de ter fornecido o projétil aos rebeldes e voltou a acusar Teerã de cometer um ato de guerra. 

Um “grupo de apoio internacional” de países preocupados com o Líbano, que inclui EUA, Rússia e França, pediu ao país que “continue a ser blindado das tensões na região”. Em um comunicado, eles também apoiaram o pedido de Aoun pelo retorno de Hariri. O presidente da França, Emmanuel Macron, fez uma visita-surpresa ao reino saudita na quinta-feira. Depois da viagem, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, disse que as autoridades francesas não acreditam que Hariri esteja sob o controle da Arábia Saudita.

O Secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, alertou para que “ninguém, dentro ou fora do Líbano, use o país como um joguete em guerras de procuração ou em qualquer modo que leve a instabilidade naquele país”. A mensagem pode servir tanto para o Hezbollah quanto para a Arábia Saudita.

Os eventos da última semana levaram analistas e diplomatas a temer que haja uma tentativa planejada de criar mais um conflito regional para enfraquecer o Irã, desta vez no Líbano. Com o fim da guerra na Síria, onde o Hezbollah, apoiado pelo Irã, teve papel preponderante na defesa do regime de Bashar Assad, o grupo xiita cresceu e ganhou força. Funcionários do governo israelense já se manifestaram sobre a necessidade de um ataque que reduza o poder da milícia xiita. Em setembro, a Força Aérea de Israel, em conjunto com EUA, Arábia Saudita e outros seis países, participou do maior exercício militar da história do país: uma simulação de confronto na fronteira com o Líbano.

Uma guerra generalizada no Líbano, no entanto, ainda é pouco provável. “Os sunitas do Líbano não têm interesse em entrar em uma guerra com o Hezbollah, então o confronto, aqui, é puramente político, dentro e fora do país”, disse ao Estado Bilal Saab, do Middle East Institute. Para ele, a renúncia de Hariri a um ano da eleição no Líbano serve para jogar os problemas do país no colo do Hezbollah e dos xiitas. 

Sem o apoio econômico da Arábia Saudita, será difícil para o Líbano resolver seus problemas, ainda mais com 1,5 milhão de refugiados sírios no país. “Os sauditas parecem ter armado uma arapuca que mata dois coelhos com uma cajadada: forçam o Hezbollah a se preocupar com a política interna enquanto cresce a ameaça de uma guerra com Israel.” / RODRIGO TURRER, COM EFE, AP e REUTERS

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