EFE/Edu Bayer
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Líder do Irã oferece 'novo capítulo' de cooperação

Na ONU, Rohani afirma que Teerã está pronta para reconstruir laços na região

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2015 | 02h02

O Irã iniciou um "novo capítulo" no relacionamento com o mundo com a assinatura do acordo internacional que levanta sanções econômicas contra o país em troca de restrições a seu programa nuclear, disse ontem o presidente iraniano, Hassan Rohani. "Não vamos esquecer o passado, mas não queremos viver no passado. Não esqueceremos a guerra e sanções, mas buscamos paz e desenvolvimento", declarou na ONU.

Segundo ele, o entendimento obtido entre Irã, EUA e outras cinco potências é um exemplo de conciliação a ser seguido para solução de outras divergências entre países. "Esse instrumento cria um precedente no qual, pela primeira vez, dois lados em vez de negociar a paz depois da guerra, se engajam no diálogo e no entendimento antes da erupção do conflito."

Rohani adotou um tom conciliador, distante dos discursos em que líderes de seu país se referiam aos EUA como "o grande satã". Em discurso anterior ao do iraniano, o presidente americano, Barack Obama, também apresentou o tratado nuclear como um exemplo de bom funcionamento das normas internacionais e uma vitória da diplomacia. "Se esse acordo for implementado integralmente, a proibição de armas nucleares será fortalecida, uma potencial guerra será evitada e nosso mundo estará mais seguro", afirmou.

O Irã, disse Rohani, está pronto para reconstruir os laços com os países da região e aproveitar as oportunidades de desenvolvimento trazidas pelo acordo, fechado no dia 14 de julho. "Esperamos nos engajar com nossos vizinhos em uma série de cooperações sociais e econômicas, que permitirão a conquista de entendimento político e até promoverão cooperação estrutural em segurança."

Ataque. Apesar da mudança de tom, Rohani responsabilizou os EUA pela instabilidade que sacode o Oriente Médio e o Norte da África. Segundo o presidente iraniano, os conflitos têm suas origens na invasão do Afeganistão e do Iraque por tropas americanas e no apoio incondicional de Washington a Israel em seu confronto com os palestinos. Se esses fatos não tivessem ocorrido, "os terroristas de hoje não teriam uma desculpa para justificar seus crimes", afirmou.

Em seu discurso, Obama acusou o Irã de apoiar grupos extremistas que atuam em outros países da região na defesa de seus interesses. Ele não mencionou nomes, mas o governo americano costuma incluir o xiita Hezbollah na lista. "Esses esforços aparentemente dão ao Irã influência nas disputas com os vizinhos, mas eles alimentam conflitos sectários que ameaçam toda a região e isolam o Irã das promessas do comércio", disse.

Rohani afirmou que o maior risco no mundo hoje é a possibilidade de organizações terroristas se transformarem em Estados terroristas, uma referência ao Estado Islâmico, grupo sunita radical que controla parte dos territórios da Síria e do Iraque. De orientação xiita, o Irã tenta conter o avanço do grupo, apoiando os governos dos dois países.

Usando o acordo obtido com as seis potências mundiais como modelo, o presidente iraniano propôs aos membros da ONU a criação de uma "frente unida contra o extremismo e a violência". Sua primeira missão seria estabilizar a região e proteger a população civil. O passo seguinte seria a cooperação para o estabelecimento de sistemas democráticos nos países em guerra. "Iraque, Síria e Iêmen são exemplos de crises estimuladas pelo terror, o extremismo, a violência, o derramamento de sangue, a invasão e a indiferença da comunidade internacional", ressaltou.

Refletindo a ambição do Irã de ser um líder regional, o presidente iraniano disse que o governo de Teerã pode ajudar no estabelecimento da democracia na Síria e no Iêmen - da mesma maneira que, segundo ele, auxiliou o processo no Afeganistão e no Iraque.

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