Líder do MST ajudou a socorrer feridos em Ramallah

O militante do Movimento dos Sem Terra (MST), Mario Lill, ajudou a socorrer feridos em Ramallah, antes de ser preso no quartel-general de Yasser Arafat. Até viajar para o Brasil Lill usava as mesmas roupas que estava vestindo quando socorreu os feridos nos ataques de Israel. "Minha roupa na mala ainda está suja com sangue", contou. Lill chegou hoje cedo no Brasil, depois de ter ficado 22 dias dentro do QG de Arafat, durante os ataques israelenses."Eu ajudei as ambulâncias a socorrer os feridos. Vi o que aconteceu em Ramallah (onde fica o QG), conseguíamos ver pelas frestas das janelas", respondeu ele, quando questionado sobre como sabia de tantos acontecimentos se estava preso no palácio onde fica Arafat. As notícias sobre Jenin, onde aconteceram os piores ataques, eram dadas por telefone. Eles também tinha notícias pelos jornalistas que os entrevistava por telefone.Lill foi para Israel representar o País na delegação internacional da Liga Campesina, em uma missão formada por várias nações que visitava os camponeses da região palestina na época em que começou os ataques de Israel.No primeiro dia, a delegação foi para a cidade velha de Jerusalém, parte palestina, e se hospedaram em um pequeno hotel. "Ficamos presos lá, cercados por tanques", afirmou. No segundo dia, o grupo saiu do hotel e foi para as ruas. "Havia dezenas de mortos e feridos, faltavam remédios e sangue nos hospitais. Todos nós doamos sangue", lembrou.Enquanto circulava pelas ruas, Lill e outros integrantes ajudaram a socorrer as vítimas. Viram tanques de guerra israelenses passarem por cima de palestinos mortos e hospitais serem atacados pelo exército de Israel. "No hospital onde estávamos, eles ficaram intimidados pela presença estrangeira e não atacaram, mas nos menores e os de outras regiões foram invadidos e os feridos foram covardemente assassinados", contou.Quanto uma parte das pessoas da delegação ficaram no hospital para que não houvesse invasão, outros foram até o QG de Arafat. "Passamos por intimidações, armas foram apontadas para a gente, mas seguimos em frente convictos de estarmos defendendo a dignidade do povo palestino", afirmou. "Não somos heróis, fizemos o que o povo estava fazendo, o mundo inteiro é solidário aos palestinos e qualquer um faria o que fizemos", disse.No quartel de Arafat, apenas o prédio central estava relativamente bem preservado. A água e a comida eram racionadas; a cada dia comiam pão árabe, com algo diferente como recheio. Em um dia era queijo, outro pepino, ou tomate e tinham também feijão enlatado. "Ficamos dias sem dormir, esperando o ataque dos israelenses, que ameaçavam invadir e atiravam", disse. "Quatro pessoas usavam um litro de água", contou.A cozinha do palácio, que virou QG de Arafat, foi destruída. "O cozinheiro morreu no ataque e os israelenses não permitiram a retirada do corpo, ficou um cheiro forte. Só deixaram tirar porque o Powell (secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell) ia fazer a visita", contou. "Eles tiraram todo o lixo na parte de fora do quartel e jogaram em um terreno baldio do lado do prédio para esconder a destruição que fizeram", completou.Por não ter água, as condições de higiene eram as piores possíveis. "Não havia colchões suficientes, usávamos tapetes também para dormir. Dividíamos uma manta entre quatro pessoas, porque nos primeiros dias estava muito frio", comentou. Segundo ele, Arafat mantinha contatos diários com o grupo, onde passava as informações que tinha sobre a repercussão mundial dos ataques israelenses. "Durante todo o tempo, ele falou que ansiava pela paz e que estava disposto a conversar", ressaltou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.