Líder do MST pede rompimento de relações com Israel

O militante do Movimento dos Sem Terra, Mario Lill, afirmou hoje que o Brasil e outros países deveriam romper relações comerciais ou políticas com Israel, por causa dos conflitos com os palestinos na Cisjordânia. Lill ficou 22 dias no quartel-general do líder da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, em Ramallah, e presenciou parte dos ataques israelenses na região. "É preciso primeiro enviar uma Força de Paz internacional, e que os países se solidarizem com a criação do Estado Palestino, rompam as relações econômicas e políticas com Israel", disse ele, em entrevista coletiva em São Paulo. Lill retornou hoje do Oriente Médio e vai agora à tarde para o Rio Grande do Sul, encontrar sua família. Na coletiva, ele contou os momentos mais tensos e díficeis vividos por ele e outros integrantes da Comissão da Liga Campesina, entidade internacional que lida com a questão dos agricultores sem-terra. Entre citou os ataques aos hospitais feitos por Israel; e cenas de tanques de guerra israelenses passando por cima de palestinos mortos. Ele contou também sobre as precárias condições do quartel general com o cerco das tropas de Israel.Lill acusou o exército israelense de invadir o hospital geral da cidade para matar palestinos feridos nas ações militares. De acordo com ele, os militares só recuaram quando chegou ao local o grupo de militantes internacionalistas, do qual participava. O governo israelense nega que tenha havido massacre de civis palestinos.Segundo o militante, que chegou hoje ao Brasil, as condições no quartel general eram de extrema penúria. "Estamos convictos de que ajudamos a salvar a vida de Arafat e centenas de soldados palestinos" disse."Passamos por fome, sede. Ficamos sem condições de higiene, mas a dor maior não era o litro de água que tínhamos que repartir para beber, mas pelo povo sendo massacrado por um exército imoral, covarde, invasor, que não tinha um pingo de afinidade com o povo palestino", afirmou Lill. Contou ainda que mantinha contatos diários com Arafat, que informava a todas as pessoas que estavam dentro do quartel, sobre a repercussão no mundo dos ataques de Israel. InterrogatórioLill foi preso logo depois de sair do quartel-general de Arafat, na última segunda-feira. Ele foi revistado e depois interrogado em hebraico pelos militares de Israel. "Não respondi nada nos interrogatórios porque não entendia a língua deles", contou. Ele disse que, quando os soldados faziam perguntas, não respondia. "Eles vinham com as algemas, faziam gestos dizendo que iam me colocar de novo na cela", lembrou. "Depois me deram um documento em hebraico para assinar e eu disse, em português, que só assinaria documento que estivesse em minha língua. Não disse nada e não assinei nada", acrescentou ele, que não fala inglês.Outras pessoas que estavam na delegação internacional da Liga Campesina sabiam falar inglês. "Os israelenses queriam saber detalhes sobre a situação dentro do quartel, mas ninguém falou nada, nem quem sabia falar inglês", afirmou."Na análise do grupo, era importante retomar os contatos fora para solidificar a solidariedade ao povo palestino", contou ele. Como no domingo havia chegado um grupo de 12 pessoas estrangeiras para ficar no palácio de Arafat, eles resolveram deixar o QG. "Em nenhum momento os palestinos ou Arafat nos obrigaram a ficar com eles. Ficamos por solidariedade", explicou.Ao sair, o exército israelense revistou um a um e levou o grupo para interrogatório. "Quando saímos, havia representantes dos Estados Unidos lá, mas eles tiraram tudo da gente, inclusive equipamentos audiovisuais. Roubaram minha máquina fotográfica, não levaram só o filme", reclamou. Foram para um campo militar para serem interrogados pela primeira vez. "De lá fomos encaminhados para outro campo, onde fomos interrogados por três grupos diferentes", comentou. Desse local, foram enviados para uma prisão que fica a 1h15 minutos de Jerusalém, mas que Lill não soube determinar onde era.Os israelenses permitiram que o grupo fosse até o hotel onde tinham se hospedado para buscar as roupas. "Mas não nos deixaram tomar banho, nem trocar de roupa", acrescentou. Eles passaram a noite de segunda na prisão e de lá foram mandados para o aeroporto de Tel-Aviv. "Uma parte do grupo tinha vôo mais tarde e ficou detida numa prisão mais próxima do aeroporto, até dar a hora de partida", contou. "Fui para o aeroporto algemado e com correntes presas nos meus pés", completou.

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