Líder egípcio pede diálogo com oposição

Morsi tenta conter crise causada por projeto de Constituição, que ontem levou a distúrbios no país

CAIRO, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 02h01

Milhares de opositores e de partidários do presidente do Egito, Mohamed Morsi, realizaram ontem comícios rivais na capital do país, quatro dias antes do referendo nacional sobre um polêmico projeto de Constituição. Morsi convocou para hoje uma reunião de diálogo nacional para tentar pôr um fim à crise.

As manifestações começaram horas depois de agressores mascarados atacarem os participantes de uma manifestação pacífica da oposição na Praça Tahrir, disparando tiros de chumbinho e agitando facas e bastões, segundo informações da polícia. Pelo menos 11 manifestantes foram feridos no ataque, disse um porta-voz do Ministério da Saúde citado pela agência oficial de notícias Mena.

A violência lembrou de maneira cruel o que está em jogo na batalha política que se desenrola neste momento no Egito em torno do disputado projeto de Constituição que será submetido a referendo no sábado. A nova Carta polarizou profundamente o país e desencadeou os piores atos de violência de rua desde que Morsi tomou posse, em junho, como o primeiro presidente livremente eleito do Egito.

De um lado estão o presidente Morsi, sua Irmandade Muçulmana e os ultraortodoxos salafistas, do outro, há uma mistura de liberais, esquerdistas e cristãos que afirmam que a nova Carta restringe as liberdades e dá aos islamistas ampla influência no governo do país.

No bairro Nasr City, no Cairo, um reduto da Irmandade, dezenas de milhares de partidários do presidente, alguns agitando bandeiras egípcias, reuniram-se ontem em frente a uma mesquita. "Quero que o grito 'Morsi' sacuda a terra", berrava em um alto-falante um homem sobre o palanque. "De beco em beco, de casa em casa, Constituição significa estabilidade."

A multidão foi crescendo rapidamente enquanto dezenas de ônibus, alguns com a placa de outras províncias do país, despejavam milhares de partidários de Morsi no local do comício. Muitos homens usavam barba, que é a marca dos islamistas, enquanto as mulheres usavam o véu muçulmano, o niqab, que cobre tudo, exceto os olhos.

A multidão denunciava a oposição liberal e seus líderes, chamando-os de antidemocráticos e acusando-os de serem leais a Hosni Mubarak, o ditador deposto no ano passado.

Várias centenas de islamistas também montaram um acampamento do outro lado da cidade, em frente a um edifício onde funcionam emissoras de rádio e televisão, como as redes de TV independentes que criticam Morsi e a Irmandade. Os islamistas ameaçaram invadir as instalações.

No vizinho bairro de Heliópolis, dezenas de milhares de integrantes da oposição reuniram-se em frente ao palácio presidencial, exigindo que Morsi revisse os pontos da Carta.

O projeto, adotado às pressas pela Assembleia Constituinte dominada por aliados islamistas do presidente, no fim do mês passado, inflamou ainda mais os ânimos na oposição, prestes a pegar em armas contra um decreto presidencial que garantia a Morsi poderes praticamente absolutos.

A oposição respondeu com centenas de milhares de manifestantes nas ruas protestando contra o presidente em comícios enormes -s maiores de grupos seculares desde o levante que derrubou Mubarak, no ano passado. Os partidários de Morsi reagiram por sua vez com grandes manifestações, o que levou a confrontos com um saldo de pelo menos seis mortos e centenas de feridos.

A partir dali, a violência espalhou-se por todo o país, com pelo menos 20 ataques aos escritórios da Irmandade Muçulmana. Ao mesmo tempo, respeitados representantes da oposição, até mesmo ex-parlamentares, foram espancados por islamistas pró-Morsi.

A poucos dias do referendo, a oposição ainda não decidiu se fará campanha por um voto "não" ou um apelo ao boicote - o que muitos consideram um reflexo das divisões existentes na oposição. A oposição rejeita todo diálogo com Morsi até que ele engavete o anteprojeto e revogue os decretos que lhe conferem poderes absolutos. / AP e EFE

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