Muhammed Muheisen/AP
Muhammed Muheisen/AP

Líder iemenita diz que deixará poder só em mãos seguras

Dezenas de milhares de manifestantes que exigem a saída imediata de Saleh voltam a tomar as ruas da capital, apesar de promessas

Laura Kasinof e Scott Shane, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Dezenas de milhares de manifestantes tomaram ontem novamente as ruas da capital do Iêmen, Sanaa, exigindo que o presidente Ali Abdullah Saleh deixe o cargo imediatamente. Em resposta ao protesto, batizado de "dia da partida", o líder admitiu que entregará o poder antes do fim do ano, desde que seja em "mãos seguras", contrariando o que havia prometido anteriormente.

Enquanto manifestantes antigoverno planejavam os protestos para o "dia da partida" do presidente Saleh, ele estava envolvido em negociações sobre o cronograma e as condições para o fim de seu regime de 32 anos, segundo autoridades americanas e iemenitas.

Mas as fontes ressaltaram que nenhum acordo tinha sido firmado e Saleh adotara uma posição desafiadora num aparecimento na televisão, falando desdenhosamente sobre manifestantes e oferecendo anistia a militares desertores se eles voltassem para o lado do governo.

No entanto, o movimento de protesto parece estar ganhando força com as deserções de um grupo de autoridades públicas de alto escalão, incluindo comandantes militares e embaixadores, e a rejeição pelos manifestantes da última oferta de Saleh, de deixar a presidência somente no fim do ano.

Saleh conversou na quarta-feira com o líder militar mais poderoso do país, o general Ali Mohsen al-Ahmar, um aliado de longa data, considerado o número 2 na escala de poder do Iêmen. Ele abandonou o presidente e ordenou às suas tropas que protejam os manifestantes esta semana. Al-Ahmar disse na televisão que não tinha nenhum interesse pelo poder político.

Alguns relatos sugeriram que os dois homens poderiam deixar seus cargos numa questão de dias ou semanas, abrindo caminho a um governo de transição e à redação de uma nova Constituição. Mas uma autoridade americana de alto escalão, que está acompanhando de perto os acontecimentos no Iêmen, disse que a imensa complexidade da sociedade tribal do Iêmen e o histórico de atitudes temerárias de Saleh sugeriam cautela.

"A suposição geral é a de que os dias dele estão contados", disse a autoridade, que não foi autorizada a falar oficialmente. "Mas Saleh parece determinado a decidir ele mesmo o período." A mesma fonte advertiu que as discussões sobre a saída de Saleh "não são apenas conversas a portas fechadas", mas negociações envolvendo representantes de 20 ou mais facções e grupos de interesse iemenitas, com frequência com o uso de intermediários.

Segundo vários relatos, as conversas estão sendo monitoradas de perto por representantes da Arábia Saudita e da embaixada dos EUA, que tinham Saleh como um aliado na luta contra o braço da Al-Qaeda no Iêmen.

Outro importante líder tribal deu seu apoio ao movimento antigoverno na quinta-feira, aumentando a pressão sobre Saleh. O xeque Sinan Abu Lahoum, que comanda a tribo bakil, está fazendo um tratamento médico nos EUA e disse que sua idade e saúde não lhe "permitem participar com a juventude" e conclamou todos os iemenitas à "revolução". O anúncio acompanhou a mudança de lado do influente líder tribal Sadeq al-Ahmar, que chefia a tribo hashid, à qual pertence o presidente. A série de deserções acelerou-se no dia 18, após o massacre de 52 manifestantes por franco-atiradores ligados ao governo na praça que se tornou centro dos protestos.

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