Líder judeu abre crise com muçulmanos na França

Em comentários à imprensa,Roger Cukierman atribui violência a jovens seguidores do Islã horas antes de jantar de confraternização religiosa

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2015 | 02h05

Representantes de instituições muçulmanas boicotaram ontem o jantar de gala organizado pelo Conselho de Instituições Judaicas da França (Crif, na sigla em francês), abrindo uma crise entre líderes das duas religiões em Paris. A represália foi decidida depois que o presidente do Crif, Roger Cukierman, afirmou que jovens seguidores do Islã são violentos e elogiou a líder do partido de extrema direita Frente Nacional (FN), Marine Le Pen.

O jantar do Crif é um evento político em Paris e costuma ser um momento de confraternização entre líderes de diferentes religiões. A edição de ontem teve a participação do presidente da França, François Hollande, entre outras autoridades.

O desentendimento teve início pela manhã, quando Cukierman concedeu uma entrevista à rádio Europe 1 chocando também judeus franceses. Respondendo sobre a proximidade de alguns judeus da FN - partido criado pelo antissemita Jean-Marie Le Pen -, Cukierman criticou a legenda, mas não poupou elogios a Marine Le Pen. "Somos conscientes de que, por trás de Marine Le Pen, que é irrepreensível, há negacionistas", afirmou, chamando o FN de "partido a se evitar".

Horas depois, falando à agência France Presse, o presidente mudou de alvo. "A Frente Nacional é um partido para o qual não votarei jamais, mas que hoje não comete atos violentos. Todas as violências são cometidas por jovens muçulmanos", disse Cukierman.

As declarações causaram mal-estar entre membros da comunidade judaica. Mas foi o Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) que reagiu da forma mais dura. Em nota oficial, o órgão denunciou as declarações de Cukierman. "O CFCM não pode aceitar que a comunidade muçulmana da França seja hoje objeto de ataques tão graves quanto infundados", destacou. "Como podemos ir jantar e encarar alguém que passa seu tempo atacando os jovens muçulmanos?", argumentou à rede pública France Télévision Abdallah Zekri, presidente do Observatório Nacional contra a Islamofobia, que também cancelou sua presença no evento.

Cukierman voltou à tona horas depois: "Lamento a decisão do CFCM e ela não me surpreende. É preciso dizer as coisas".

A polêmica surge pouco mais de um mês depois dos atentados de 7, 8 e 9 de janeiro contra o jornal satírico Charlie Hebdo, policiais e um mercado judaico de Paris, cometidos por três homens de origem muçulmana.

O governo da França pretendia usar o evento para reagir contra a ofensiva do premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, para atrair judeus da Europa. Há dez dias, após os ataques em Copenhague, o premiê voltou a exortar os judeus a realizar a Aliyah - imigração à "terra prometida". Um fundo especial financia subsídios aos interessados. Em resposta, Hollande diria ontem que o lugar dos judeus franceses é na França.

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