Líder legislativo anuncia sessão sobre sucessão

Diosdado Cabello diz que Maduro toma posse hoje como presidente interino; segundo Carta, eleição deve ocorrer em um mês

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h05

O corpo do presidente venezuelano, Hugo Chávez, será embalsamado "como o de Lenin e Mao Tsé-tung", anunciou ontem o presidente interino, Nicolás Maduro, acrescentando que o velório do líder continuará por pelo menos mais sete dias na Academia Militar, para que "todos os venezuelanos que queiram vê-lo, possam vê-lo".

Em outra declaração importante, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello anunciou para hoje uma sessão extraordinária do Legislativo para tratar da posse de Maduro como presidente encarregado e a convocação das eleições "como determina a Constituição venezuelana".

Assim, a cerimônia fúnebre de Estado marcada para hoje, com a presença de autoridades de alto nível de mais de 80 países não será encerrada com um sepultamento. Após ser embalsamado, o corpo ficará exposto no Museu Histórico da Revolução, no distrito de 23 de Enero, em Caracas.

Maduro também saudou e agradeceu, nas mesmas declarações, a presença da presidente Dilma Rousseff - que retornaria na madrugada de hoje ao Brasil -, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros líderes estrangeiros, como o cubano Raúl Castro e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

Durante todo o dia de ontem, enquanto multidões de chavistas formavam filas quilométricas - e enfrentavam uma espera de até 12 horas para aproximar-se do caixão de Chávez - nas vias de acesso ao complexo militar de Forte Tiúna, uma disputa silenciosa se desenrolava nos bastidores da política venezuelana sobre o destino dos restos mortais do líder bolivariano.

Entre os chavistas mais radicais, crescia a aspiração - apoiada por centenas de milhares de mensagens no microblog Twitter - de depositar os restos de Chávez no Panteão dos Heróis, em Caracas, construído para abrigar o herói da independência da Venezuela, Simón Bolívar e outros próceres do país.

Mas a Constituição venezuelana estabelece que os restos de uma personalidade política só podem ser depositados no Panteão pelo menos 25 anos depois de sua morte. "Seria um golpe post-mortem", disse ao Estado um político da oposição que, diante do cuidado para não acirrar os ânimos do setor chavista, pediu para não ter o nome divulgado.

O museu de 23 de Enero foi instalado no quartel onde Chávez se rendeu após liderar a tentativa de golpe contra Carlos Andrés Pérez, em 1992.

Os opositores também receberam com desconfiança o anúncio de Maduro de que o chavismo pretende estender a comoção social por mais uma semana. Desde a morte de Chávez, na terça-feira, o país vive sob luto oficial de sete dias. Líderes da Mesa de Unidade Democrática (MUD) têm aguardado o fim desse período para consolidar sua candidatura para as eleições presidenciais. Até ontem, a única autoridade do governo chavista a mencionar as eleições tinha sido o chanceler Elías Jaua.

"Com a manutenção da visitação ao corpo de Chávez por mais sete dias, abre-se o pretexto para adiar ainda mais o anúncio da data da eleição e o governo mantém sua militância organizada e sua mensagem na mídia por mais tempo", declarou a fonte do Estado.

"Chávez é o símbolo central do chavismo e o ativo fundamental para sua permanência no poder. Era previsível mantê-lo presente fisicamente", declarou o presidente do instituto de pesquisa Datanálisis, Luis Vicente León. Na avaliação de boa parte dos especialistas, a oposição - que deve ter como candidato o governador de Miranda, Henrique Capriles - terá o trabalho dificultado pela comoção popular que deve favorecer o chavismo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.