Líder líbio confirma doação ilegal de Kadafi a Sarkozy

Ex-presidente francês recebeu € 50 milhões até 2009, diz primeiro governante da Líbia eleito democraticamente

Andrei Netto, Correspondente/Paris, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2014 | 02h03

O ditador Muamar Kadafi financiou um caixa 2 da campanha eleitoral que resultou na ascensão ao poder do ex-presidente da França Nicolas Sarkozy, em 2007. A confirmação foi feita pelo primeiro chefe de Estado eleito da Líbia após a revolução de 2011, Mohamed Al-Megarief, e constam de trechos originais que não foram publicados no livro Meu Combate pela Liberdade, nas livrarias de Paris desde janeiro.

Um dos líderes históricos da oposição a Kadafi, Megarief foi chefe de Estado da Líbia entre agosto de 2012 e maio de 2013. Depois de deixar o poder, ele se dedicou a escrever um relato de sua experiência como oposicionista e, a seguir, no poder. Em seu livro, publicado em Paris em janeiro pela editora Cherche Midi, não constam pelo menos cinco páginas dos originais escritos por Megarief que fazem referências às doações clandestinas feitas por Kadafi à União por um Movimento Popular (UMP), o partido de Sarkozy. Segundo sua versão, as transferências só foram encerradas em 2009 e cerca de € 50 milhões da Líbia teriam ido parar em contas na Europa.

Os trechos não publicados foram revelados pelo site de investigações jornalísticas Mediapart. "A única campanha da qual eu posso falar aqui é a de Nicolas Sarkozy em 2007", diz El-Megarief. Muitos veículos de imprensa franceses e estrangeiros tentaram refazer o cenário, reconstituir todos os protagonistas. A verdade está semeada em diversas investigações. Eu vou dizer o que sei."

Então o ex-líder líbio afirma: "Não se trata de culpar Nicolas Sarkozy, porque seu engajamento pela liberação da Líbia foi exemplar e o povo líbio lhe é tributário. Mas por que mentir ou negar? Sim, Kadafi financiou a campanha de Sarkozy e continuou a financiar após 2007".

Megarief diz se basear em documentos dos arquivos de Estado que consultou para afirmar que o ex-chefe de um dos serviços de inteligência líbios Abdalla Senoussi era um dos responsáveis pela entrega dos recursos. "O ano de 2007 representa o apogeu do que foi feito de pior em matéria de cinismo político", diz. Em um trecho do livro, Megarief reitera: "Os financiamentos líbios evocados pela imprensa francesa são reais".

Os recursos, diz o ex-chefe de Estado, vinham de um fundo de US$ 6,5 bilhões, o Libya Africa Investment Portfolio (LAP). "Kadafi considerava que todo homem poderia ser comprado e se vender. Era necessário apenas discutir o preço", argumenta Megarief.

Em Paris, o diretor-presidente da editora Cherche Midi, Philippe Héraclès, justificou os cortes no livro afirmando temer processos da parte de Sarkozy.

As relações entre o ex-presidente e Kadafi são investigadas pelo Ministério Público da França. A primeira revelação sobre o tema foi feita por um dos filhos do ditador, Saif al-Islam, e pelo próprio Kadafi antes da intervenção militar francesa - ordenada por Sarkozy -, em 2011.

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