Líder morre e militares tentam golpe na Guiné

Capitão anuncia tomada de poder e suspensão da Carta; governo nega

AP E AFP, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2008 | 00h00

Aproveitando-se do vazio de poder que se seguiu ao anúncio da morte do presidente Lansana Conté, na segunda-feira à noite, oficiais do Exército da Guiné anunciaram ontem que tinham tomado o poder, dissolvido o governo e suspendido a Constituição no país africano.No entanto, horas depois, o presidente da Assembléia Nacional, Aboubacar Sompare - a quem caberia legalmente assumir o poder -, negou que país tivesse sofrido um golpe militar e qualificou os líderes do movimento golpista de "um pequeno grupo de amotinados". "Não acredito que todo o Exército esteja por trás dessa rebelião", afirmou Sompare.Em entrevista a uma emissora de TV francesa, o comandante do Exército da Guiné, general Diarra Camara, assegurou que o comando do Exército não estava participando de um golpe e o poder seria transferido, de acordo com a Constituição, a Sompare. Ainda segundo Camara, nenhuma autoridade do governo Conté estava presa.Mesmo assim, até a noite de ontem, diplomatas ocidentais não sabiam dizer ao certo quem estava governando o país. Em meio à situação confusa, testemunhas relataram um movimento abaixo do normal nas ruas da capital, Conakry. De acordo com essas mesmas fontes, a presença militar na cidade não era ostensiva. "Não vi nenhuma criança de uniforme escolar nem nenhuma das mulheres que, a esta hora, deveriam estar no mercado do centro", declarou um jornalista da rede de rádio e TV britânica BBC que vive na capital. O anúncio do golpe foi feito pelo capitão do Exército Moussa Dadis Camara (cujo parentesco com o comandante da força não está claro). Por meio da rádio estatal, ele afirmou que as instituições vigentes do Estado mostraram-se "incapazes de resolver as crises que o país vem enfrentando"."A partir de hoje, a Constituição fica suspensa, assim como as atividades políticas e sindicais", disse ele. "O governo e as instituições da república foram dissolvidos." De acordo com Camara, seria criado um "conselho consultivo" formado por líderes civis e militares para assumir o governo.Ex-colônia francesa, a Guiné tem enfrentado nos últimos anos uma série de distúrbios e protestos contra o governo de Conté, que governava com mão-de-ferro desde 1984. Rica em recursos minerais e principal produtor de bauxita do planeta, a Guiné tem a maioria de seus 9,8 milhões de habitantes em situação de pobreza extrema.Ao anunciar o golpe, Moussa Camara afirmou que a junta militar daria prioridade ao desenvolvimento econômico, combateria a corrupção, acrescentando que o futuro governo seria "mais equilibrado etnicamente". A população da Guiné é formada pelas etnias peuhl (40%), malinke (30%) e sussu (20%) - além de grupos étnicos menores. Quase 90% dos guineanos são muçulmanos.Conté era sussu e tinha 74 anos. A causa da morte não ficou clara no ato do anúncio oficial, feito pelo primeiro-ministro Ahmed Souare, em rede nacional de TV - no qual pediu calma à população e declarou 40 dias de luto nacional. Sabe-se que Conté era diabético e fumante inveterado.

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