Líder paquistanês afirma que esteve pronto a usar armas atômicas contra a Índia

O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, afirmou hoje, pela primeira vez, que esteve pronto para usar armas atômicas contra a Índia neste ano. E Nova Délhi respondeu que o arsenal nuclear do Paquistão não a teria dissuadido da ação militar. As declarações parecem confirmar os temores, na época, de que o mundo estava perto de testemunhar a primeira guerra nuclear bilateral. "Transmiti pessoalmente mensagens ao primeiro-ministro (da Índia, Atal Behari) Vajpayee, por meio de todos os líderes internacionais que vieram ao Paquistão, avisando que, se as tropas indianas dessem um único passo além da fronteira internacional, ou Linha de Controle, elas não deveriam esperar uma guerra convencional por parte do Paquistão", disse Musharraf a veteranos da Força Aérea paquistanesa, referindo-se ao arsenal nuclear do país. A tensão se elevou quando os dois lados enviaram tropas à fronteira comum depois de um ataque mortal ao Parlamento indiano em dezembro do ano passado. Nova Délhi acusou Islamabad de ajudar a planejar o ataque, que matou 14 pessoas, e o Paquistão negou qualquer envolvimento. Os dois países já haviam travado três guerras em 50 anos. Uma quarta parecia iminente, até que um intenso esforço diplomático internacional acalmou os ânimos. O comandante das forças armadas da Índia afirmou que a capacidade nuclear do Paquistão não teria detido os indianos. "Estávamos absolutamente prontos para ir à guerra. Nossas forças estavam bem posicionadas", disse hoje o general Sunderajan Padmanabhan, segundo a agência indiana Press Trust. "Tal decisão (de ir ou não à guerra) é, no fim das contas, uma decisão política." A tensão pareceu diminuir recentemente, quando ambos os lados disseram estar se distanciando da opção da guerra. Depois de concentrar mais de 1 milhão de soldados ao longo da fronteira, a Índia anunciou em outubro que começava a retirá-los. No mês passado, o Paquistão anunciou que fazia o mesmo. Mas há pouca confiança em ambos os lados. Hoje, o ministro da Defesa do Paquistão, Rao Sikandar Iqbal, acusou a Índia de não retirar suas tropas completamente. "O Paquistão tem provas irrefutáveis de que a Índia não concluiu a retirada da fronteira, e também estamos mantendo na área nossos recursos estratégicos necessários", disse ele à Associated Press. "A Índia tentou nos enganar. Não é um jogo honesto." Muitos países têm interesse no entendimento entre a Índia e o Paquistão. Os Estados Unidos, particularmente, estavam ansiosos para evitar uma guerra, já que dependiam bastante do apoio paquistanês para seu combate global ao terrorismo - e para a guerra liderada pelos americanos no Afeganistão, vizinho ocidental do Paquistão. Quando a ameaça de guerra total ganhou força, Washington enviou seus principais diplomatas à Índia e ao Paquistão para fazê-los recuar. Os EUA e outros países também retiraram os diplomatas e suas famílias como medida preventiva de segurança - embora a maioria já tenha retornado. O presidente paquistanês parecia hoje declarar vitória moral sobre a Índia - mesmo que os dois vizinhos do sul da Ásia não tenham se encontrado no campo de batalha neste ano. "Derrotamos nosso inimigo sem ir à guerra", disse ele na reunião dos veteranos. Musharraf não entrou em detalhes.

Agencia Estado,

30 Dezembro 2002 | 20h10

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