Líder pensou em atacar aviões no Recife em 1982

Aeronaves argentinas que buscavam armas na Líbia e faziam escala no Brasil seriam alvo da primeira-ministra

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2013 | 02h02

A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher chegou a considerar atacar aviões que usaram aeroportos brasileiros como escala para buscar armas na Líbia e abastecer os argentinos na Guerra das Malvinas. A informação faz parte dos 6 mil telegramas e documentos secretos que o governo da Grã-Bretanha tornou públicos no final de 2012, 30 anos depois da guerra.

Segundo os papéis, o Aeroporto do Recife foi usado como entreposto para armas que eram enviadas da Líbia para a Argentina durante a guerra. Acusando o Brasil de não ter fibra moral e ceder diante dos argentinos, os britânicos estavam convencidos de que o uso do Recife como base de apoio aos militares argentinos era de conhecimento do mais alto escalão do governo brasileiro.

Num telegrama enviado para Londres em 1.º de junho de 1982, o então embaixador britânico no Brasil, George Hardings , dá detalhes dos carregamentos de armas, alguns dos quais usavam aviões da companhia Aerolíneas Argentinas. A suspeita era de que o avião transportava mísseis Exocet e sua avaliação era de que os voos teriam recebido autorização do Ministério da Aeronáutica do Brasil.

Thatcher pediu então que uma avaliação legal sobre a possibilidade de abater as aeronaves que chegavam ao Brasil. No dia 11 de junho, o procurador-geral britânico, Michael Havers, relatou à Dama de Ferro sua opinião legal sobre o impacto de interceptar a carga. "Um avião voando diretamente de Trípoli a Recife no Brasil sem parar para abastecer não poderia ser interceptado ou forçado a descer porque não teria combustível suficiente", explicou. Ele acrescentou que Londres poderia fazer um alerta à Argentina de que novos carregamentos que fizessem escala no Brasil seriam "atacados" se não aceitassem ser desviados. Já Hardings desaconselhou um ataque contra esses aviões ou contra o Brasil, alertando para as "sérias consequências políticas" que isso teria.

A descoberta provocou uma reação diplomática intensa em Londres. Num telegrama de 1.º de junho, o governo britânico pediu ajuda da Casa Branca para pressionar o Brasil em relação ao auxílio dado aos argentinos. A guerra acabaria precipitando o fim da ditadura da junta militar na Argentina, um ano depois.

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