Líder rebelde oferece 'corredor humanitário' no Congo

Milhares foram obrigados a se deslocar por causa de conflitos no leste do país desde o início da semana

Agências internacionais,

31 de outubro de 2008 | 08h02

O ex-general rebelde Laurent Nkunda disse na quinta-feira, 30, que está disposto a criar um "corredor humanitário" para que a ajuda aos milhares de refugiados, que aumentaram nos últimos quatro dias de luta no Leste do Congo. Nkunda disse em entrevista à CNN que quer começar a trabalhar com a missão da ONU no país nesta sexta, para permitir que as pessoas possam retornar para suas casas.   Veja também: Histórico dos conflitos armados no Congo   Apesar da trégua anunciada pelo grupo rebelde tutsi, houve uma onda de saques a casas e lojas, pelo menos nove pessoas foram assassinadas e três jovens foram estupradas na cidade de Goma, considerada estratégica no país. Um funcionário da missão de paz da ONU acusou os próprios soldados congoleses pelos atos, informação negada pelo coronel do Exército Jonas Padiri. Segundo Padiri, as pessoas foram mortas "por ladrões". Nkunda ameaçou romper a trégua e ocupar a cidade, caso a ONU não seja capaz de manter a paz. Segundo ele, a missão internacional falhou em proteger os civis dos soldados do governo. "Vamos entrar em Goma se não houver cessar-fogo, segurança e avanços no processo de paz", declarou Nkunda, um ex-general da etnia tutsi.   "Estamos respeitando nosso cessar-fogo... Estamos esperando pela resposta do governo (sobre a oferta do corredor humanitário) e das tropas da força de paz", afirmou à CNN. "Queremos ter uma agenda para discutir temas políticos com o governo". Nkunda disse ainda que seus soldados estão cercando a cidade de Goma, para onde foram milhares de pessoas que fugiram do leste do país.   Segundo a BBC, a Cruz Vermelha afirmou que as forças rebeldes e o Exército no Congo causaram uma "catástrofe humanitária" no país. Esforços diplomáticos estão sendo feitos para tentar solucionar a crise, que pode se espalhar pelo país vizinho, Ruanda. Agências de ajuda humanitária como a Oxfam decidiram retirar seus funcionários estrangeiros de Goma. Michael Khambatta, do Comitê Intenacional da Cruz Vermelha, disse à BBC que a prioridade agora é fornecer comida, remédios, abrigo e alguma forma de segurança aos civis que foram forçados a deixar suas casas. Cessar-fogo   Na última quarta-feira, depois de dias de combates com as tropas governamentais, o general Nkunda declarou um cessar-fogo e suas tropas ficaram posicionadas a cerca de 15 quilômetros de Goma, capital da província de Kivu do Norte.   A ONU está considerando reposicionar parte de seus 17 mil soldados no país para dar reforço aos 5 mil homens que estão na cidade. As tropas de de Nkunda são acusadas de receber apoio do governo de Ruanda, atualmente governada pelos tutsis, o que o país nega. Analistas afirmam que além das diferenças étnicas, o conflito também se deve à disputa pelas riquezas minerais da região.   O conflito no Congo é uma conseqüência do genocídio de Ruanda, que deixou 500 mil tutsis mortos em 1994. Mais de 1 milhão de hutus fugiram para o Congo, onde se reagruparam em uma milícia violenta. Em reação, Nkunda, da etnia tutsi, lidera o grupo de rebeldes. Ele acusa o governo de Joseph Kabila de fazer pouco para ajudar sua minoria étnica.   Histórico   O início do atual conflito no Congo se remonta a 1998, quando os rebeldes banyamulenges - tutsis de origem ruandesa - levantaram-se contra o governo de Laurent Kabila, quem tinha chegado ao poder em meados de 1997, apoiado pelos próprios tutsis. Desde então, o conflito entre os rebeldes do CNPD e os soldados congoleses não cessou, embora a situação tivesse se acalmado depois que Nkunda e o atual presidente, Joseph Kabila, assinassem um acordo de paz, em 23 de janeiro.   Em 10 de outubro, porém, Kabila exortou publicamente os congoleses a se mobilizarem "para apoiar as tropas e o governo e preservar a unidade e a paz de nosso país", enquanto Nkunda chamou os cidadãos a se levantarem "contra um governo que traiu seu povo."   Mais de 5,4 milhões de pessoas morreram na RDC por causa do conflito, no qual os governos de Kinshasa, Campala e Kigali se acusam mutuamente de apoiar os grupos rebeldes que atuam em seus países. Em um relatório divulgado no início deste ano em Kinshasa, pouco após a assinatura do último tratado de paz, a organização humanitária International Rescue Committee assinalou que os conflitos e as crises humanitárias continuam causando uma média de 45 mil no país a cada mês.   "Em termos de número de mortos, o conflito congolês e suas conseqüências ultrapassam qualquer outro desde a Segunda Guerra Mundial", indicava o documento.

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