Mike Blake/Reuters
Mike Blake/Reuters

Líder republicano faz mais duro ataque a Trump e o classifica como ‘impostor’

Para candidato derrotado por Barack Obama em 2012 e representante da cúpula do partido, Mitt Romney, bilionário que defende endurecimento contra imigrantes e muçulmanos é uma ameaça à segurança, à economia e à democracia do país

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2016 | 07h00

O mais violento ataque contra Donald Trump no atual ciclo eleitoral americano veio não de um adversário democrata, mas do mais recente candidato à presidência de sua própria legenda, o republicano Mitt Romney, que descreveu o bilionário como um “impostor” e uma ameaça à segurança, à economia e à democracia dos EUA.

Símbolo da elite partidária, Romney afirmou que Trump é desonesto e desprovido de qualidades para comandar o país. O discurso do candidato derrotado em 2012 por Barack Obama foi a mais explícita tentativa do establishment republicano de conter a caminhada do bilionário rumo à nomeação do partido para as eleições de novembro. Trump venceu 10 das 15 prévias eleitorais realizadas até agora e pode conquistar a candidatura se repetir seu desempenho nos Estados que votarão nas próximas duas semanas.

O senador John McCain, que foi o candidato republicano nas eleições de 2008, divulgou nota na qual manifestou apoio às posições de Romney e classificou de “desinformadas” e “perigosas” as propostas de Trump nas áreas de defesa e política externa. McCain preside a Comissão das Forças Armadas do Senado e é uma das vozes mais respeitadas do Partido Republicano em questões de segurança nacional.

Romney disse entender a raiva que dá impulso à candidatura de Trump, mas observou que ela deveria ser canalizada para propósitos mais nobres. “Ele transforma muçulmanos e imigrantes mexicanos em bodes expiatórios. Ele defende o uso da tortura. Ele defende o assassinato de filhos e familiares de terroristas. Ele celebra a agressão a manifestantes. Ele aplaude a perspectiva de deturpar a Constituição para limitar a liberdade de imprensa”, declarou. “Esse é o tipo de ódio que levou outras nações ao abismo.”

O ex-governador de Massachusetts também atacou a personalidade e questionou o talento empresarial do líder da corrida republicana. “A intimidação, a ganância, o exibicionismo, a misoginia, o absurdo comportamento infantil”, afirmou. “Imagine seus filhos ou netos agindo da maneira que ele age.” Segundo ele, Trump levou negócios à falência e viu alguns de seus empreendimentos fracassarem. “Ele herdou empresas, ele não as criou.”

Não está claro se os ataques influenciarão os seguidores de Trump. Romney é o símbolo da cúpula da legenda contra a qual as bases republicanas se rebelaram. Além disso, quando foi candidato em 2012, ele teve apoio e financiamento do bilionário de Nova York. Na época, ele elogiou a “extraordinária habilidade” de Trump de entender a economia americana e criar empregos. Também observou que ele era uma das poucas vozes a acusar a China de “trapacear” no comércio internacional.

Em seu discurso, Romney propôs uma estratégia para tentar impedir que Trump obtenha o número-chave de 1.237 delegados durante as prévias, o que levaria a disputa à convenção do partido, marcada para julho. A esperança da cúpula republicana é a de que surja um nome de consenso capaz de consolidar os votos anti-Trump durante o evento.

Romney defendeu que os senadores Ted Cruz e Marco Rubio e o governador de Ohio, John Kasich, permaneçam na disputa e tentem vencer Trump nos Estados onde são mais fortes. Para isso, os eleitores republicanos que se opõem ao bilionário deveriam dar seus votos a Rubio na Flórida, a Kasich em Ohio e a Cruz em Estados nos quais ele esteja bem nas pesquisas. É uma aliança de difícil realização, que depende de um acordo de cavalheiros entre os candidatos e do comportamento dos eleitores.

Trump classificou as declarações de Romney de “irrelevantes” e disse que ele “fracassou” nas eleições de 2012. O bilionário afirmou que o então candidato republicano implorou por seu apoio na disputa contra Obama. “Eu poderia ter dito ‘Mitt, ajoelhe-se; e ele teria se ajoelhado’”, observou. Segundo ele, Romney pretendia ser candidato de novo na atual eleição, mas “amarelou” pelo suposto medo enfrentá-lo.

O líder da disputa republicana rejeitou ainda os questionamentos sobre suas habilidades empresariais. “Eu ganho muito mais dinheiro que Mitt. Eu tenho uma loja que vale mais do que (a fortuna de) Mitt.” 

Os ataques de Romney miraram ainda o comportamento pessoal de Trump. “Esse é um indivíduo que ridiculariza um repórter deficiente, que atribui a pergunta de uma repórter a seu ciclo menstrual, que desdenha de uma rival brilhante que é mulher em razão de sua aparência, que se gaba de seus casos extraconjugais, que adorna seus discursos com vulgaridade”, acusou.

O republicano também censurou Trump por seus ataques a McCain, que passou cinco anos em uma prisão no Vietnã durante a guerra dos anos 60. “Ele é um herói de guerra porque ele foi capturado. Eu gosto de pessoas que não foram capturadas”, disse o bilionário no ano passado.

Ontem, Romney respondeu ao comentário: “Há uma obscura ironia na exaltação de suas proezas sexuais durante a Guerra do Vietnã. Ao mesmo tempo, John McCain, a quem ele desdenhou, estava na prisão e era torturado”.

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