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Líder sérvio condenado a 40 anos de prisão por crimes de guerra

Radovan Karadzicfoi sentenciado pelo Tribunal Penal Internacional pelos crimes de genocídio, crimes contra a humanidade

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2016 | 12h21

GENEBRA - Radovan Karadzic, líder sérvio, foi condenado a 40 anos de prisão pelo Tribunal Penal para os Crimes da ex-Iugoslávia e considerado como culpado pelos crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. A decisão, anunciada nesta quinta-feira, 24, em Haia, foi comemorada pela ONU e ativistas de direitos humanos e considerada como o principal julgamento após um conflito desde a Segunda Guerra Mundial. 

Entre as condenações está sua participação no massacre de Srebrenica, na Bósnia em 1995, e por ter sido um dos artífices das atrocidades durante a guerra na ex-Iugoslávia, entre 1992 e 1995. Na avaliação do tribunal, ele ainda orquestrou uma "limpeza étnica" contra bósnios muçulmanos. 

"Essa decisão mostra o compromisso da comunidade internacional por lutar contra a impunidade, 21 anos depois de seu indiciamento", declarou o Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein. 

Segundo o Tribunal, Karadzic foi o mentor dos ataques contra cidades, tortura e assassinato de milhares de pessoas, além da destruição de locais muçulmanos e católicos. Por 44 meses, ele sitiou com suas forças Sarajevo, gerando a morte de 12 mil pessoas. « Seu julgamento é de um simbolismo poderoso, especialmente para as vítimas da guerra da Bósnia e para vítimas de guerras em todo o mundo», disse Zeid. 

Ele foi indiciado em 1995. Mas passou 14 anos em fuga e só foi capturado em Belgrado em 2008, disfarçado de médico alternativo. Para a ONU, sua condenação também deve servir de recado a líderes europeus para que evitem discursos nacionalistas, xenófobos e que usem minorias como justificativa para problemas sociais mais amplos. 

Mas 20 anos depois que os canhões se silenciaram no Balcãs, Karadžić é ainda considerado como um heroi em algumas partes do país. As feridas ainda estão abertas e a decisão deve aprofundar a tensão entre minorias. 

O veredito foi anunciado 18 meses depois de um julgamento que levou cinco anos. Com 70 anos, ele insistia que suas ações tinham como objetivo proteger os sérvios durante a guerra da Bósnia. 

Atuando como seu próprio advogado, ele chamou mais de 200 testemunhas, se apresentou como "um homem de paz" e disse que era um "verdadeiro amigo dos muçulmanos". Ele ainda insistiu que desconhecia o massacre de Srebrenica. 

Mas acabou sendo condenado por dez das onze acusações, entre elas a de deportar civis, assassinatos e sequestros de tropas de paz da ONU. Para o tribunal, o condenado  "estava de acordo com o plano das mortes" de Srebrenica.

Os procutadores o acusavam ainda de ter sido o responsável pelo massacre de Srebrenica, quando 8 mil homens e garotos bósnios foram mortos. O juiz O-Gon Kwon o inocentou do crime de genocídio em ataques a outras cidades onde croatas e bósnios foram obrigados a fugir.

Lendo a sentença por mais de uma hora, Kwon relatou alguns dos maiores horrosos vividos pela Europa desde 1945 e numa guerra que fez mais de 120 mil mortos. Impassivo, Karadžić escutou sem qualquer reação.

Nas tribunas da Corte, sobreviventes e mães de garotos mortos pelo condenado lotavam o local. 

A sentença foi o momento mais importante da corte que completa 23 anos de existência e que praticamente chega ao fim de seus trabalhos nos próximos anos. Desde 1993, ela indiciou 161 pessoas e condenou 80 pessoas. 18 suspeitos foram inocentados e 13 casos enviados de volta para as cortes locais.

A corte, porém, não conseguiu condenar o ex-presidente sérvio, Slobodan Milošević, que morreu na prisão em Haia em 2006. Além de Karadžić, outros três suspeitos continuam em julgamento, entre eles Ratko Mladic. 

O condenado poderá recorrer da sentença, num processo que ainda levará tres anos. 

 

 

 

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