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Líder sírio desafia Ocidente e mantém repressão sangrenta a manifestantes

Embora o regime de Bashar Assad tivesse anunciado, na véspera, o fim de 'operações militares contra grupos subversivos', pelo menos 34 militantes da oposição foram mortos ontem; EUA e países europeus exigem a renúncia do ditador

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Um dia depois de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e de seus aliados europeus pedirem a saída de Bashar Assad do poder em Damasco, as forças de segurança do regime sírio mataram ao menos 34 pessoas, segundo ativistas da oposição.

Milhares de manifestantes, incentivados pelos pedidos do líder americano e dos chefes de governo da Alemanha, França e Grã-Bretanha, entoaram gritos exigindo o julgamento de Assad por crimes contra a humanidade no Tribunal Internacional de Haia. Outros chegaram a pedir a morte do líder sírio, dando mostra do agravamento nas tensões entre os dois lados.

O governo da Síria negou ter usado violência contra os manifestantes e disse, por meio da agência de notícias estatal Sana, que quatro membros de suas forças de segurança e dois civis foram mortos por militantes armados. Não há confirmação independente do número porque o regime sírio ainda restringe o acesso de jornalistas e organizações internacionais ao país.

Na quinta-feira, Assad havia pessoalmente ligado para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, comprometendo-se a interromper a violência contra opositores. Depois de mais um dia de repressão ontem, Farhan Haq, porta-voz das Nações Unidas, disse em Nova York que o líder da entidade "acredita que qualquer afirmação indicando o fim da violência precisa ser verificada. Continuamos ouvindo relatos que precisam ser verificados. Para isso, gostaríamos que fosse permitido o acesso do nosso grupo de direitos humanos".

Uma missão do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês) deve desembarcar na Síria hoje para verificar os fatos de forma independente. Os focos devem ser as cidades de Hama e Latakia, alvos de recentes ações das forças do regime. Segundo Navi Pillay, alta comissária de Direitos Humanos da ONU, os atos das do governo sírio "podem ser considerados crimes contra a humanidade".

As manifestações, de acordo com alguns relatos de pessoas que estão na Síria e segundo vídeos disponíveis na internet, teriam sido comparativamente inferiores às de outras semanas. Mais uma vez, os protestos se concentraram em Latakia, Homs e Daara, onde a presença da oposição é maior. Essas cidades, ao longo dos cinco meses de levantes, sofreram violenta repressão por parte das forças do regime. Em Hama, ocupada pelas forças de segurança, os opositores evitaram protestar em larga escala.

O número menor de atos contra o regime, segundo grupos de direitos humanos, deve-se ao temor de mais violência por parte do governo. Ainda assim, a página da rede social Facebook comandada pela oposição da Síria dizia que ontem era o "dia do começo da vitória". As sextas-feiras, no mundo árabe, são favoráveis a protestos porque a população se reúne nas mesquitas para realizar suas orações semanais. Durante este mês do Ramadã, a concentração é ainda maior por ser o mais sagrado do calendário islâmico.

Há informações de protestos pequenos nos subúrbios de Damasco, mas não no centro da capital. Em Aleppo, centro econômico da Síria, de acordo com os próprios opositores, não ocorreram protestos. Para Assad, a manutenção da estabilidade nessas duas cidades é fundamental. Segundo consultorias de risco político, seu regime continuará firme enquanto o líder sírio mantiver o controle dos dois maiores centros do país. Hosni Mubarak, do Egito, viu seu poder ruir mais rapidamente porque os protestos ocorriam no centro do Cairo e de Alexandria, diante de jornalistas do mundo inteiro. Esse seria um dos motivos, até mesmo, para a relutância de Assad em permitir a entrada de repórteres estrangeiros. Não está claro se, nos últimos dias, a oposição a Assad aumentou ou diminuiu.

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