Líder sudanês deve visitar Venezuela, em desafio à condenação internacional

O presidente do Sudão, Omar al-Bashir - primeiro governante em exercício a ser sentenciado por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) -, viajará no dia 26 para a Venezuela, a convite do presidente Hugo Chávez. Ele participará da cúpula entre países sul-americanos e africanos da qual também participará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O convite foi entregue à chancelaria sudanesa no dia 2, mas só foi revelado ontem pela agência de notícias do governo de Cartum, Suna.

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Como o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra o presidente sudanês por crimes de guerra cometidos na região sudanesa de Darfur, qualquer país que seja membro do tribunal teria a obrigação de entregar Al-Bashir à corte, caso ele pise em seu território.

O líder sudanês foi considerado culpado por incitar uma guerra civil que deixou mais de 300 mil mortos, no que é considerado pelo governo americano como o primeiro genocídio do século 21º.

A estratégia do Sudão é mostrar ao tribunal que Al-Bashir tem apoio político internacional. Desde que foi sentenciado, o líder sudanês já fez dez viagens ao exterior, para mostrar que não está preso a seu país.

Mas esta viagem à América do Sul será a mais importante para a mensagem política que Al-Bashir quer enviar à Justiça. Esta será a primeira vez que ele viajará para um destino fora do continente africano e fora do eixo dos países árabes.

Em março, Lula foi constrangido ao ser colocado ao lado do colega sudanês, num almoço oficial. O presidente brasileiro abandonou o local para escapar da saia-justa, mas até hoje não revelou se é contra ou a favor da sentença recebida por Al-Bashir.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, estava no mesmo almoço com Al-Bashir e Lula, em março. Como seu colega brasileiro, Cristina também abandonou o local.

A Argentina está julgando ex-generais que cometeram crimes durante a ditadura militar (1976-1983). O chanceler argentino, Jorge Taiana, explicou que seu governo "respeita o sistema internacional", dando apoio ao TPI. Chávez defende o sudanês, comparando seu sofrimento ao dos palestinos. "Dou meu apoio pleno a Al-Bashir. (O ex-presidente George W.) Bush é o verdadeiro genocida que invadiu o Iraque e matou crianças. O TPI é um resquício do imperialismo. Se Al-Bashir cometeu um crime, a Justiça sudanesa deveria julgá-lo. Não pode haver um poder supranacional", disse, cinco meses atrás.

A presidente do Chile, Michelle Bachelet, deixou claro que não concorda com Chávez. "O Chile foi um dos países que impulsionaram o TPI. Pela nossa experiência, há momentos em que a soberania de um país não basta. Há valores que são universais, que são o dos direitos humanos", disse.

Francisco Santos, vice-presidente da Colômbia, disse na semana passada ao Estado que não gostaria de estar na foto oficial do evento se Al-Bashir estivesse nela.

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