Líder supremo do Irã elogia discurso de Obama

Khamenei saúda decisão dos EUA de apostar na diplomacia; potências ampliam pressão

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h01

Em um movimento inesperado, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, elogiou ontem a posição do presidente Barack Obama sobre a necessidade de avançar neste momento em uma solução diplomática - e não militar - ao programa nuclear iraniano. "Ouvimos quando o presidente americano diz que não está pensando em uma guerra com o Irã. Essas são boas palavras e uma saída para a ilusão", disse.

Khamenei completou que o programa nuclear é "um pilar da dignidade" iraniana. Seria, portanto, uma "ilusão" acreditar que, por meio de sanções, o Ocidente será capaz de fazer o Irã abandonar suas ambições atômicas, concluiu o número 1 da república islâmica.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disse em entrevista a três tevês israelenses que prefere a opção diplomática para conter o programa nuclear iraniano, mas um ataque contra o Irã poderia ocorrer em questão de meses. "O resultado precisa ser a remoção da ameaça nuclear das mãos do Irã", disse o premiê.

Ainda ontem, seis potências conclamaram o Irã a permitir a entrada de inspetores internacionais em instalações que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) considera suspeitas. Na quarta-feira, diplomatas da agência da ONU haviam afirmado a jornalistas ter fotos de satélite que mostrariam iranianos tentando "limpar" a radiação de uma base militar.

Em uma rara demonstração de unidade, o chamado "P5+1" - grupo formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, Rússia, Grã-Bretanha, França e EUA) mais a Alemanha - pediu a Teerã a condução de um diálogo "sério, sustentável e sem precondições" sobre seu programa nuclear. A declaração buscaria mostrar ao Irã que a via diplomática é ainda a aposta para resolver o impasse.

O principal alvo da pressão das potências é a base de Parchin, à qual os inspetores não têm acesso. Imagens em poder da AIEA exibiriam caminhões e retroescavadeiras tentando "limpar" traços de radioatividade no local. Suspeita-se que os iranianos tenham testado um detonador de nêutrons em Parchin - tecnologia usada somente para fins militares.

O veto do Irã ao acesso dos inspetores fez com que a última missão da AIEA ao país persa, no mês passado, terminasse com um clima de tensão. Proibidos de investigar, os funcionários retornaram a Viena. Ontem, as potências disseram estar preocupadas com o impasse e pediram a Teerã que abra as portas de "locais relevantes solicitados pela agência".

Teerã vem indicando que aceitaria uma visita à base militar, mas só após um acordo sobre a questão nuclear entre a AIEA e o governo. Para as potências, essa é uma estratégia dos iranianos para adiar uma investigação in loco. Em declarações ontem em Viena, o embaixador iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh, classificou a preocupação do Ocidente com Parchin como "infantil e ridícula". Há poucos dias, o chefe da agência atômica da ONU, o japonês Yukiya Amano, confirmou que estava preocupado com "atividades não especificadas" em Parchin e, por isso, solicitara uma visita ao local com urgência. Em 2005, a agência esteve na base. Mas a estrutura que hoje aparece em fotos não existia naquela época.

O governo americano disse que a declaração conjunta é um alerta "claro e forte" de que essas são as exigências da comunidade internacional. Segundo a Casa Branca, se o processo não avançar nas próximas semanas, as potências vão solicitar que uma ação mais dura contra Teerã seja adotada na reunião de junho da AIEA. O grupo "lamentou" a decisão do Irã de acelerar seu processo de enriquecimento de urânio.

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