Líder taiwanês critica separatistas

Presidente Ma Ying-jeou é contra independência total de Taiwan e tenta ganhar espaço no mercado econômico da China continental

ROBERTO LAMEIRINHAS, ENVIADO ESPECIAL / TAIPÉ, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h05

Interessado no vasto mercado para Taiwan que deve ser aberto pela decisão da China continental de estabelecer uma região econômica especial em Xangai, o presidente taiwanês, Ma Ying-jeou, ampliou as críticas aos setores da política doméstica da ilha que defendem o confronto aberto com Pequim.

"Sei que há vozes em Taiwan que se levantam em favor da declaração plena de independência, mas digo a essas pessoas que em termos políticos e econômicos, e no interesse do bem-estar de nossa população, não é hora pra isso", declarou Ma no discurso que marcou as celebrações da data nacional da República da China - como os taiwaneses preferem ser chamados -, há dez dias.

O regime de administração especial em Xangai deve aumentar as facilidades para empreendimentos conjuntos entre empresas taiwanesas e da China continental. Taipé já tem lucrado de forma significativa com os 19 acordos de cooperação em vários segmentos econômicos e sociais firmados com o regime de Xi Jinping no ano passado.

Esses convênios viabilizam a presença de capital taiwanês em centenas de projetos na China continental. O Estado constatou em Taipé várias manifestações em favor da independência da ilha - na qual Chiang Kai-shek, fugindo do avanço de Mao Tse-tung, instalou a capital da República da China, em 1949 - e do rompimento total dos laços com Pequim.

Não há pesquisa independente sobre a questão, mas o governo de Taiwan estima entre 15 e 20% a parcela da população taiwanesa em favor do rompimento definitivo de todos os laços com Pequim.

"Um número muito parecido de pessoas defendem a reincorporação à China", diz o vice-ministro para temas relacionados à China continental, professor Chu Chia-lin. "Há uma parcela muito grande da população da ilha que simplesmente acredita que, em termos de negócios, seria vantajoso para Taiwan reintegrar-se à China."

Impasse. Apesar dos dois extremos da questão sempre mostrar presença no cenário político de Taiwan, o professor Chu afirma que a maior parte dos jovens da ilha não tem nenhum interesse na política. "Para eles, tanto faz quem se encarregue do governo central, desde que haja espaço e oportunidade para que continuem faturando."

Chu, no entanto, descarta qualquer possibilidade de uma solução para a questão taiwanesa com base na fórmula encontrada para Hong Kong e Macau. "A fórmula de 'um governo, dois sistemas' é inaceitável para Taiwan, porque os taiwaneses fazem questão de manter suas garantias individuais e suas tradições democráticas."

Os números da economia taiwanesa continuam impressionando. O PIB é de quase US$ 500 bilhões, o desemprego entre a população de pouco mais de 23 milhões de habitantes é quase zero, o salário mínimo beira os US$ 700 e as exportações para a China continental não param de crescer.

"Não deveríamos ter pobres em Taiwan, uma vez que o governo supre as necessidades básicas de todos os habitantes por meio de programas de assistência, mas temos problemas sociais, como o alcoolismo e o jogo", diz Antonio Yeh, também funcionário da chancelaria taiwanesa, responsável pelos laços com América Latina e Caribe.

As relações internacionais, na verdade, são uma das questões-chave na relação com Pequim. Até o começo dos anos 70, Taiwan ocupava a vaga destinada à China na ONU, uma vez que o regime da ilha era reconhecido como o legítimo governo chinês. O governo comunista de Pequim era considerado uma entidade usurpadora do poder. As coisas mudaram com a diplomacia do ping-pong empreendida por Richard Nixon e Henry Kissinger, que viram as oportunidades que o futuro crescimento chinês ofereceria.

Intervenção. A China comunista assumiu a vaga da República da China em todo o sistema internacional e, cada vez mais influente economicamente, passou a exigir de países com quem tem relações diplomáticas o não reconhecimento de Taiwan.

A questão do status de Taiwan segue hoje, como prefere a maioria do atual governo da ilha, em banho-maria. Pequim alega que três cenários poderiam levar a uma eventual intervenção no que considera sua província rebelde: a declaração formal de independência, a ocorrência de distúrbios que o governo local não possa conter ou a interferência de forças estrangeiras na ilha. Por enquanto, nenhuma dessas situações se apresenta.

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