Líder turco alerta para queda de Kobani

Erdogan diz que ataques aéreos talvez não sejam suficientes para conter avanço do Estado Islâmico; curdos mantêm combates e pedem ajuda

MURSITPINAR, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2014 | 02h03

Combatentes curdos na Síria lutavam ontem com militantes do Estado Islâmico (EI) em Kobani, enquanto o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, alertava que a cidade de fronteira estava prestes a cair, apesar dos ataques aéreos americanos contra os militantes.

Erdogan afirmou que esses ataques talvez não sejam suficientes para deter o avanço do EI e pediu mais apoio para os insurgentes que se opõem ao grupo na Síria. O presidente turco ressaltou que o principal problema entre a Turquia e os Estados Unidos é que o presidente Barack Obama quer que Ancara adote ações mais intensas contra o EI, ao passo que Erdogan quer que os americanos se concentrem mais em depor o presidente da Síria, Bashar Assad. Há muito tempo a Turquia apoia a oposição a Assad.

"É preciso que haja cooperação com os que estão lutando em terra", insistiu Erdogan, falando aos refugiados sírios em um campo em Gaziantep, uma província fronteiriça a oeste de Kobani.

Mas, de acordo com curdos sírios e turcos, a força terrestre que precisa de ajuda imediata é o grupo curdo que combate o Estado Islâmico nas ruas de Kobani, os Comitês de Proteção do Povo. Eles acreditam que, em razão da longa história de tensões entre a Turquia e sua população curda, Erdogan considera o grupo, conhecido como YPG, um inimigo, e até mesmo uma ameaça maior do que o EI.

Estes complicadores fazem parte da confusão de alianças e inimizades que desafiam a iniciativa americana de promover ataques contra o EI sem entrar mais a fundo no conflito sírio.

Pouco depois do discurso de Erdogan, um avião bombardeou um local a cerca de um quilômetro a sudoeste de Kobani. Segundo alguns habitantes, o alvo seria um tanque do EI que há dois dias castigava incessantemente a cidade. Em menos de uma hora, seguiram-se mais dois ataques na mesma área.

Vários outros atingiram posições do EI ao sul e a leste da cidade, informou Barwar Mohammad Ali, um coordenador da força YPG curda, que falou por telefone de Kobani. "É a primeira vez que as pessoas têm a impressão de que os ataques aéreos estão sendo eficientes", disse Ali, referindo-se aos combatentes curdos nas linhas do fronte. "Mas eles precisam de muito mais."

Segundo Ali, os combates nas ruas continuaram ontem e os membros do YPG mataram numerosos inimigos e capturaram 20, entre eles 10 estrangeiros. Militares americanos confirmaram quatro novos ataques aéreos contra o EI: um ao sul de Kobani, que destruiu três veículos armados; outro a sudeste, que atingiu artilharia antiaérea, e dois a sudoeste, que danificaram um tanque e "destruíram uma unidade do EI".

Mas houve pouca manifestação de entusiasmo entre as multidões de curdos que observavam a batalha do outro lado da cerca que marca a fronteira, muitos deles haviam fugido há pouco da cidade. Mahmoud Nabo, um curdo sírio de 35 anos que deixou sua casa em Kobani depois que combatentes do YPG pediram aos civis que abandonassem a cidade na segunda-feira, disse que os ataques aéreos terão um efeito limitado, pois os militantes do EI agem em pequenos grupos.

"Agora posso ver que as bombas estão se aproximando do meu bairro", disse, apontando para o lado ocidental da cidade. "Achávamos que tudo cessaria após o primeiro ataque aéreo contra o EI, mas agora estão caindo mais perto e com maior frequência."

Outro espectador, Avni Altindag, um curdo da vizinha cidade turca de Suruc, disse que o EI é mais forte do que alguns ataques aéreos. Ele apontou para os homens que olhavam a fumaça subindo sobre Kobani, que gritavam palavras de ordem ao YPG. "Eles tinham grandes expectativas em relação aos ataques contra o EI, mas estão decepcionados", afirmou.

Altindag culpou a Turquia pela demora de ataques mais fortes liderados pelos EUA. "Os turcos não querem ajudar os que consideram seus inimigos", afirmou. "Kobani cairá nas mãos do EI por culpa da Turquia."

As autoridades turcas rejeitaram permitir que o YPG receba suprimentos e armas, a não ser que cumpra exigências que são praticamente inviáveis do ponto de vista político. A Turquia quer que o grupo denuncie Assad e se una abertamente aos insurgentes sírios que lutam contra o presidente e desmantele sua zona semiautônoma na Síria. Mas o YPG e seu partido político afiliado, o PYD, aceitaram o controle das áreas curdas quando as forças de Assad recuaram no início da guerra síria, e se concentraram na questão do autogoverno e na proteção do seu território mais do que no combate ao governo.

A Turquia quer também que o PYD se distancie do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que o governo turco e os EUA definem como um grupo terrorista.

O impasse deixa Kobani isolada. Alguns refugiados estão literalmente espremidos contra a cerca, não querem passar para o outro lado, pois não podem levar seus animais, e às vezes são bloqueados pelas autoridades turcas. Soldados turcos se mantêm afastados observando os combates em seus veículos blindados e impedem que curdos sírios e turcos passem para a Síria para combater o EI.

Mais de 180 mil pessoas já fugiram dos combates ao redor de Kobani, que além de sua população recebe dezenas de milhares de sírios fugitivos. A Turquia já abriga mais de 1,5 milhão de sírios, o que implica um enorme ônus econômico e político.

Na segunda-feira, cerca de 200 civis que passaram para a Turquia procedentes de Kobani foram detidos pelas autoridades turcas, informou um dos presos, Mustafa Bali. Ele falou por telefone que foram levados de ônibus de um posto de fronteira até um ginásio esportivo de uma aldeia, onde continuam detidos.

Jovens do grupo, que também incluía mulheres e crianças, foram interrogados sobre os líderes do YPG e suas relações com eles.

"Me deixaram trancado num cômodo por quatro horas", disse Bali, um ativista curdo sírio. "Vasculharam meu telefone e mensagens de texto, e me fizeram perguntas a respeito de nomes específicos do YPG de uma maneira muito insultante. Disseram que seríamos soltos quando acabassem com o procedimento, mas não sei que procedimento é esse que um refugiado precisa receber."/ NYT

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