'Líder venezuelano não conseguirá voltar à presidência'

Ex-mentor intelectual de Chávez, sociólogo alemão duvida que mudança no poder trará instabilidade; 'eleições decidirão futuro'

Entrevista com

FELIPE CORAZZA, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2013 | 02h04

A presença de Hugo Chávez em Caracas para sua posse no dia 10 é "pouco provável", mas o país deve seguir "suas bases constitucionais". A avaliação é do sociólogo Heinz Dieterich.

Qual é a possibilidade de que Hugo Chávez esteja em Caracas para a posse no dia 10?

Vejo como pouco provável. Mas certamente se pode dizer, e essa é a informação crucial, que não conseguirá voltar a exercer a presidência.

No caso da ausência do presidente, é mais provável que se convoque eleições ou haverá instabilidade?

Não haverá instabilidade. A maioria da população quer ordem e paz. Os principais líderes da oposição, particularmente Henrique Capriles, já entenderam isso. É a mesma posição do lado governista. Quer dizer, não há nenhuma força relevante na Venezuela que pretenda ou possa provocar instabilidade. O processo continuará por suas bases constitucionais, e isso significa novas eleições.

A oposição tem força suficiente para vencer novas eleições?

Não, a oposição não pode vencer novas eleições. Está dividida e, acima de tudo, não tem um projeto convincente de governo. Para ganhar, precisa deslocar-se para o centro. Capriles e Ramos Allup iniciaram esse processo, mas ainda necessitam de alguns anos para obterem credibilidade. Os opositores perderão a eleição se o chavismo jogar bem suas cartas.

O sr. falou ao diário chileno La Tercera sobre um "chavismo sem Chávez". Como seria esse contexto?

Um governo liderado por um presidente Nicolás Maduro seria o "chavismo sem Chávez". No entanto, à medida que Maduro se consolidasse no poder e Hugo Chávez se debilitasse cada vez mais pela doença, Maduro poderia estabelecer mudanças no modelo original. Seria um processo semelhante ao cubano. Raúl Castro segue formalmente o modelo socialista de Fidel, mas o está alterando qualitativamente.

O vice-presidente Maduro é capaz de concluir um processo de sucessão? A indisposição entre ele e Diosdado Cabello pode ser um obstáculo?

Cabello perdeu a batalha pública pela sucessão, mas continua a ter considerável poder. Ele utilizará esse poder para tratar de moldar o processo de transição e manter seu potencial político para o futuro. O mais provável é que Maduro e Cabello façam uma aliança tática agora para ganhar as eleições. Depois, a história será outra.

Como os militares venezuelanos estão monitorando a situação? Há mal-estar nos quartéis?

Não, não há mal-estar. A tropa e os comandantes médios estão com Hugo Chávez, e o mesmo vale para os altos oficiais, tanto os que estão na ativa quanto os que viraram governadores - são 11 de 20 - e passaram a integrar a classe política chavista. São altamente politizados, conscientes da situação e têm toda a informação necessária para analisar e atuar como um bloco coeso de poder.

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