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Liderança da Al-Qaeda é 'a mais fraca em anos', diz jornalista britânico

Segundo autor de livro sobre a rede terrorista, a organização está mais fragmentada desde morte de Bin Laden

Bruna Ribeiro, do estadão.com.br,

30 de abril de 2012 | 20h48

SÃO PAULO - Osama bin Laden era o rosto mais famoso da ameaça terrorista contra o Ocidente. Há um ano, contudo, a longa caçada chegava ao fim. Uma operação de 40 minutos conduzida pela elite da marinha americana, os Seals, no complexo de US$ 1 milhão que escondia Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão, colocou fim à busca pelo inimigo número 1 dos EUA.

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Embora tenha sido criticada por alguns familiares de vítimas do 11 de Setembro, a operação que resultou na morte de Bin Laden deixou um gosto de acerto de contas em cidadãos que comemoraram nas ruas. Foi um evento simbólico, acima de tudo, para a "guerra contra o terror" iniciada pelo presidente George W. Bush, mas também para a própria Al-Qaeda, que sofreu uma perda na estrutura psicológica.

Na opinião de Jason Burke, autor do livro "Al-Qaeda, a verdadeira história do radicalismo islâmico", desde a morte de Bin Laden "a Al-Qaeda se tornou muito mais fragmentada". Em entrevista ao estadão.com.br, Burke disse que embora o terrorista tenha certamente perdido o controle do planejamento da organização, ele havia se tornado uma espécie de "referência, de mito".

Por isso, mesmo assim ele dava as orientações para toda a organização", diz. Para o autor e jornalista, Bin Laden "era insubstituível e único". Um ano após a morte dele, "a liderança central é a mais fraca em muitos anos", segundo Burke. "O maior poder agora está nas filiais como AQAP, que atua no Iêmen e na Arábia Saudita, ou AQIM, no norte da África".

Personificação do mal

A ameaça de Bin Laden e da Al-Qaeda alimentou, por muito tempo, a sustentação de políticas, aparatos e investimentos centrados em segurança de armamentos, segundo o professor de Direito Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Salem Nasser. "Isso também explica a construção da imagem pessoal de um Bin Laden que personificaria o mal. A sua morte tem maior importância, portanto, no plano simbólico".

Para o professor, a morte de Bin Laden não tem potencial de enfraquecer nem de fortalecer a Al-Qaeda. "A rede foi pensada, desde o início, como algo desestruturado, como uma constelação de células autônomas. O seu poder sempre foi limitado e, no fundo, um problema de polícia".

Entretanto, para Mateus Soares de Azevedo, autor do livro "Homens de um livro só: o fundamentalismo no islã e no pensamento moderno", a rede criada por Bin Laden vai deixar de existir. Segundo ele, que também é especialista em Relações Internacionais, mais cedo ou mais tarde, a organização vai acabar. "A morte de Bin Laden significou o fim do principal cérebro, do coração, do principal incentivador, da principal face e do principal marqueteiro (da rede)", disse.

"O que a gente sabe é que o baque com a morte dele foi tremendo, porque ele era o centro da organização, era um homem inteligente", explica. Para Azevedo, apesar de a organização ter sido bem concebida e descentralizada, sem o dinheiro e o comando de Osama bin Laden será difícil mantê-la.

'Afrouxamento temporário de relações'

Para os especialistas, as relações contraditórias entre Estados Unidos e Paquistão não mudaram com a morte do terrorista. "É uma parceria estratégica de importância maior, mas marcada por grandes desconfianças e por pequenas (ou grandes) traições", comenta Nasser.

"Sempre se soube que o aparato de segurança do Paquistão tem relações íntimas com os chamados fundamentalistas que os Estados Unidos consideram inimigos, por um lado, e, por outro, os Estados Unidos não hesitam em bombardear regiões do Paquistão ou ali levar a cabo assassinatos", completou.

Apesar da frustração por Bin Laden estar escondido no Paquistão, com suspeitas de que tivesse apoio de parte do Exército ou da inteligência, segundo Azevedo o afrouxamento dessas relações foi apenas temporário. "Os EUA precisam do Paquistão naquela região, principalmente no que diz respeito ao Afeganistão e a combater esses terroristas islâmicos", opinou.

Por outro lado, segundo o especialista, "o Paquistão também precisa do dinheiro e da tecnologia dos EUA para combater um inimigo forte ao sul, a Índia. Então eles vão acabar se entendendo".

Tema eleitoral

A morte de Bin Laden está na agenda da disputa eleitoral deste ano nos EUA. Segundo Burke, os democratas foram tradicionalmente vulneráveis em segurança. "Isso oferece uma resposta perfeita para todos que acusam Obama de não ser competente nas ameaças como o terrorismo".

Na última semana, o vice-presidente Joe Biden usou a morte de Osama bin Laden para promover a campanha de Obama para a reeleição. "Se você está procurando um rótulo para resumir como o presidente Obama conquistou este legado, é muito simples: Osama bin Laden está morto e a General Motors vive", disse Biden. "Certamente a candidatura de Barack Obama vai ser facilitada por este episódio", opinou Azevedo.

Para o especialista, o presidente é visto no país como um socialista, um esquerdista e como um "frouxo no combate ao terrorismo". "Ele vai mostrar que não, que inclusive foi mais competente que outros que se consideravam durões, como o Bush e a turma dele. Certamente isso vai ser importante como ferramenta eleitoral na campanha de reeleição do Obama".

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