'Liderança messiânica é o que aglutina o chavismo'

Um dos principais nomes do chavismo até 2007, deputado opositor crê que movimento será vítima do 'messianismo'

Entrevista com

CARACAS, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h01

Poucos conhecem os dois lados da polarizada política venezuelana como o deputado Ismael García. Ele chegou a ser a cara do programa Barrio Adentro, uma das maiores bandeiras de Hugo Chávez - projeto elogiado por levar infraestrutura e criticado por servir como braço do partido do governo em favelas. García coordenou a campanha do bolivariano à presidência em 2006, rompeu com ele em 2007 e passou a ser um de seus maiores críticos - e também um dos seus principais alvos. Como preço da mudança de lado, veio o uso permanente de guarda-costas e a troca regular no número de celular. A seguir, os principais trechos da entrevista com o deputado do partido Avanzada Progresista, pelo Estado de Aragua, governado pelos chavistas - a oposição controla 7 dos 23 Estados, os mais ricos.

A palavra mais usada pelos chavistas desde a última cirurgia do presidente venezuelano é unidade. É tão iminente a divisão no chavismo?

O fator aglutinador do chavismo é Chávez e sua liderança messiânica. É imprevisível o que pode ocorrer sem ele, porque não há outro líder. Esse é o problema do messianismo. Qualquer dirigente no chavismo que pudesse esboçar uma liderança era esmagado por Chávez. O próprio (Raúl) Baduel nunca foi bem visto por Chávez porque também era bem visto pelos chavistas. Acabou preso (Baduel liderou o movimento que devolveu o poder a Chávez após a tentativa de golpe de 2002. Desde 2009, cumpre pena de oito anos de prisão, acusado de corrupção. Ele se manifestou contra a reforma constitucional proposta por Chávez em 2007).

Qual é o balanço de forças dentro do chavismo hoje?

Os ultrarradicais estariam com Diosdado Cabello (presidente da Assembleia). Do outro lado está Nicolás Maduro, que sabe conversar com as pessoas. Mas Diosdado deve estar com muita raiva da situação (Cabello, ligado aos militares, era cotado como sucessor do presidente).

O senhor era um dos principais nomes do chavismo. Por que decidiu trocar de lado?

Em 2006, quando ganhamos pela segunda vez as eleições, fui chefe de campanha. Primeiro, estive em desacordo com o governo sobre a RCTV (emissora que tinha a maior audiência do país, cuja licença foi caçada por Chávez em 2007). Depois, ele propôs um partido único. Em 2007, ele apresentou uma reforma constitucional que afetava o modelo de economia, a geometria do poder e outras coisas com as quais não concordamos. Houve uma ruptura.

Se Chávez não tomar posse, o presidente da Assembleia, ligado aos militares, deve convocar nova eleição. Acha que o fará?

No caso de violarem a Constituição, o país entraria em uma situação muito complicada. Haveria um enfrentamento, até mesmo dentro do Exército.

O senhor ainda é chamado de traidor?

Vivemos una situação difícil. Deram um tiro no braço de um amigo na última campanha. O chavismo idolatra o presidente, que é incapaz de discutir ideias. Todo aquele que pensa diferente, para Chávez, é traidor ou agente do imperialismo. Mas isso não importa. Não saí do governo por questões burocráticas ou de cargo. Foi por ideias. / R.C.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.