Líderes árabes se calam

Temor que os países da região têm do Islã político do Hamas é maior do que a aversão a Israel

DAVID D., KIRKPATRICK, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2014 | 03h30

Quando perseguiu os militantes palestinos em Gaza, há dois anos, Israel foi pressionado de todos os lados por seus hostis vizinhos árabes a cessar a guerra. Mas não desta vez.

Depois de derrubar o governo da Irmandade Muçulmana, no ano passado, o Egito lidera uma nova coalizão de nações árabes - incluindo Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - que efetivamente se alinhou com Israel na luta contra o Hamas. Isso pode ter contribuído para inviabilizar um acordo de cessar-fogo.

"O ódio e o temor que os países árabes nutrem pelo Islã político é tão forte que supera a aversão por Binyamin Netanyahu (o primeiro-ministro de Israel)", afirmou Aaron David Miller, acadêmico do Wilson Center em Washington e ex-negociador para o Oriente Médio de vários presidentes americanos.

"Nunca vi situação semelhante, em que tantos países árabes consentem com a morte e destruição em Gaza e com o ataque ao Hamas", ele disse. "O seu silêncio é ensurdecedor".

Embora o Egito seja tradicionalmente o intermediário mais importante em todas as conversas com o Hamas - considerado um grupo terrorista pelos EUA e Israel -, o governo egípcio desta vez surpreendeu o Hamas propondo um acordo de cessar-fogo que atendia à maior parte das exigências de Israel e a nenhuma do grupo palestino. O Hamas foi taxado de intransigente quando o rejeitou imediatamente. Mas o Cairo continuou insistindo que sua proposta é o ponto de partida de futuras discussões.

Quando comentaristas favoráveis aos palestinos criticaram a proposta considerando-a um truque com o qual se pretendia criar embaraços ao Hamas, os aliados árabes do Egito o elogiaram. "Há claramente uma convergência de interesses destes vários regimes com Israel", disse Khaled Elgindy, ex-assessor de negociadores palestinos, hoje pesquisador da Brookings Institution em Washington. Segundo Elgindy, na batalha contra o Hamas a luta egípcia contra as forças do Islã político e o combate israelense contra militantes palestinos são quase idênticos. "Por procuração de quem será esta guerra?", indagou.

Inversão. A dinâmica inverteu todas as expectativas da Primavera Árabe. Há um ano e meio, a maioria dos analistas em Israel, em Washington e nos territórios palestinos acreditava que os levantes populares tornariam os governos árabes mais sensíveis a seus cidadãos, e portanto mais favoráveis aos palestinos e mais hostis a Israel. Mas Israel se apresenta como beneficiário inesperado do tumulto, agora com o apoio tácito dos líderes da ordem conservadora que renasce como aliada na luta comum a todos eles contra o Islã político.

As autoridades egípcias culparam direta ou indiretamente o Hamas, e não Israel, pelas mortes palestinas, mesmo por ocasião dos bombardeios das escolas da ONU pelos israelenses.

E a mídia egípcia pró-governo continuou criticando energicamente o Hamas como instrumento de um complô islamista com o objetivo de desestabilizar o Egito e a região, como tem feito desde a deposição do presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, pelos militares, no ano passado.

Segundo Maisam Abumorr, uma estudante palestina da Cidade de Gaza, alguns programas de entrevistas egípcios favoráveis ao governo do Cairo transmitidos em Gaza "afirmam que o Exército egípcio deveria ajudar o Exército israelense a eliminar o Hamas".

O Egito enfureceu o povo de Gaza porque fechou os túneis usados para contrabandear produtos para Gaza, e manteve os postos fronteiriços fechados, ampliando a escassez de alimentos, água e suprimentos médicos após três semanas de combates.

"Abdel-Fatah al-Sissi (o presidente do Egito) é pior que Netanyahu, e os egípcios estão conspirando contra nós mais do que os judeus", afirmou Salhan al-Hirish, um comerciante de Beit Lahiya, norte de Gaza. "Eles acabaram com a Irmandade Muçulmana no Egito e agora querem acabar com o Hamas."

O Egito e outros países árabes, principalmente as monarquias da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, no Golfo Pérsico, de repente aliaram-se a Israel numa oposição comum ao Irã, uma potência regional rival, notória fornecedora de armas e financiadora do Hamas.

Para Washington, este desdobramento cria novos obstáculos a seus esforços para pôr fim aos combates. Embora as agências de inteligência egípcias continuem conversando com o Hamas, a nova animosidade de Cairo em relação ao grupo contesta a eficiência desse canal.

Consequentemente, o secretário de Estado John Kerry pediu a mediação de países mais favoráveis aos radicais islâmicos, como Catar e Turquia - os dois Estados que adquiriram maior prestígio regional com a ascensão do Islã político após a Primavera Árabe e sofreram o isolamento quando o entusiasmo arrefeceu.

Mas esta medida pôs Kerry na contraditória posição de parecer para alguns analistas menos hostil ao Hamas - e portanto menos favorável a Israel - do que o Egito ou seus aliados árabes.

Para os falcões israelenses, a mudança ocorrida nos países árabes foi relativamente positiva. "A interpretação no caso é que a maioria dos governos árabes é indiferente ou quer seguir a direção do Egito", disse Martin Kramer, presidente do Shalem College em Jerusalém e estudioso americano-israelense de política islamista e árabe. "Ninguém no mundo árabe diz aos americanos: 'Parem agora'", como a Arábia Saudita fez quando Israel reprimiu anteriormente os palestinos. "Isso dá aos israelenses espaço de manobra."

Com a volta do governo anti-Irmandade, respaldado pelos militares, afirmou Kramer, o novo governo egípcio e aliados como a Arábia Saudita parecem acreditar que "o povo palestino deve suportar o sofrimento se quiser derrotar o Hamas, pois não se pode permitir que o Hamas triunfe, nem que se torne o expoente mais poderoso da comunidade palestina".

As autoridades egípcias contestaram a definição, afirmando que o novo governo mantém seu apoio ao povo palestino, embora suas relações com o Hamas estejam se deteriorando, e não está mais próximo de Israel do que era na época de Mohamed Morsi ou de Hosni Mubarak.

"Temos uma responsabilidade histórica para com os palestinos, e isso não tem a ver com nossa posição em relação a qualquer facção", afirmou um diplomata de alto escalão do Egito. "O Hamas não é Gaza, e Gaza não é a Palestina."

As autoridades egípcias observaram que os militares egípcios e o Crescente Vermelho forneceram medicamentos e outros tipos de ajuda a Gaza. O Cairo continua mantendo abertas as linhas de comunicação com o Hamas.

Mas, segundo outros analistas, o Egito e seus aliados árabes tentam encontrar um equilíbrio entre sua enorme aversão ao Hamas e o apoio emocional dos cidadãos aos palestinos, equilíbrio que poderá tornar-se mais difícil à medida que a carnificina em Gaza aumentar. "Agora, as consequências da Primavera Árabe favorecem Israel", disse Elgindy. "Mas não tenho certeza de que a história tenha chegado ao fim a esta altura." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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