Alexander F. Yuan/AP
Alexander F. Yuan/AP

Líderes chineses consideram reforma democrática, dizem fontes

Presidente e provável sucessor têm pressionado cúpula do Partido Comunista

Reuters

06 de novembro de 2012 | 13h57

PEQUIM - O atual líder da China e seu provável sucessor estão pressionando o Partido Comunista para adotar um processo mais democrático este mês para a escolha de uma nova liderança, disseram fontes, em uma tentativa de aumentar sua legitimidade em declínio aos olhos do público.

 

A extensão da reforma seria sem precedentes na China comunista, onde as eleições para os cargos mais altos do partido, realizadas a cada cinco anos, têm sido principalmente exercícios de carimbar candidatos já definidos por negociadores poderosos do partido.

O Partido Comunista, que está no poder desde 1949, está lutando para manter sua legitimidade popular em face da crescente desigualdade, corrupção, e degradação ambiental, mesmo com a economia ainda seguindo em frente.

O presidente Hu Jintao e seu herdeiro, Xi Jinping, propuseram que o 18º Congresso do partido, que começa na quinta-feira, deve realizar eleições para a elite do Politburo, onde pela primeira vez haveria mais candidatos do que lugares disponíveis, disseram três fontes com ligações com a liderança do partido.

 

O Politburo, atualmente com 24 membros, é o segundo nível mais alto de poder na China, a partir do qual o maior órgão de decisão, o Comitê Permanente do Politburo, é escolhido. Eles são escolhidos pelos cerca de 200 membros efetivos do Comitê Central, que, por sua vez, são escolhidos pelos mais de 2 mil delegados no Congresso esta semana.

 

Pela proposta, haveria até 20% a mais de candidatos do que vagas no novo Politburo, em uma eleição a ser realizada na próxima semana, disseram as fontes. Não estava claro se a votação concorrida também seria estendida para o Comitê Permanente.

 

"Hu quer ampliar a democracia intrapartidária para ser um de seus legados", afirmou uma fonte, pedindo anonimato para evitar repercussões para a discussão de políticas secretas da elite. "Também seria bom para a imagem de Xi."

 

Xi é considerado certo para substituir Hu como chefe do partido no Congresso, com Li Keqiang, atualmente um vice-premiê, cotado para ser seu vice na transição para uma nova administração. Xi, então, tomaria posse como presidente e Li, como primeiro-ministro, na sessão plenária anual do parlamento, em março.

 

Especialistas da China afirmaram que uma eleição mais competitiva para o Politburo marcaria uma reforma histórica, que pode levar a surpresas na formação da administração Xi, com implicações mais amplas para reformas políticas.

 

"Isso iria proporcionar uma nova fonte de legitimidade. Não seria apenas uma manipulação às escuras... A legitimidade do partido está tão baixa que eles precisam fazer algo para elevar a confiança do público", disse Cheng Li, um membro sênior do Brookings Institution, em Washington.

 

Abrindo o jogo. Segundo a proposta, um Politburo com, digamos, 25 lugares seria disputado por um máximo de 30 candidatos, deixando cinco dos candidatos apresentados negociados pela elite do partido sob risco de derrota.

Como o Comitê Permanente é escolhido a partir do Politburo, tal reforma pode também levar a surpresas na elite do partido, que normalmente é decidida por consenso meticuloso em uma série de negociações de bastidores.

Especialistas em China disseram que dos principais candidatos para o Politburo e para o Comitê Permanente desta vez, há alguns cujas chances podem ser melhoradas em uma votação competitiva para o Politburo, e alguns provavelmente suariam com o resultado.

Jean-Pierre Cabestan, um especialista em política chinesa da Hong Kong Baptist University, disse que tal votação pode ajudar reformadores de renome, tais como Wang Yang, chefe do partido em Guangdong, e Li Yuanchao, chefe do poderoso departamento de organização do partido.

Wang é bastante conhecido por lançar limitadas reformas democráticas no vilarejo de Wukan este ano para conter uma revolta, mas suas chances de chegar ao Comitê Permanente foram questionadas recentemente, quando fontes disseram que ele tinha sido deixado de fora de uma lista preferencial de candidatos apresentada por Hu, Xi e o ex-líder Jiang Zemin.

Já o favorito Liu Yunshan, chefe de propaganda do partido, poderia ter mais a temer em uma votação mais democrática, disse Chen Ziming, um estudioso independente da política em Pequim.

"Muitas pessoas não gostam de seu trabalho", disse Chen. "Eles também têm que levar em consideração a opinião pública", acrescentou.

Fontes disseram que a proposta Hu-Xi também aumentaria significativamente a competitividade das eleições para a terceira divisão do partido, o Comitê Central, um corpo de cerca de 200 membros, onde uma forma muito limitada de votação competitiva já ocorre.

No último congresso, em 2007, havia 8 por cento mais candidatos do que lugares para o Comitê Central, acima dos 5 por cento em 2002, escreveu o professor da Central Party School Gao Xinmin, no Study Times. Segundo a proposta, isso pode subir para até 40 por cento desta vez, disseram as fontes.

O Gabinete de Informação do Conselho Estatal, que funciona como o escritório do porta-voz do partido, não quis comentar. A proposta Hu-Xi foi apresentada num momento em que o partido está dividido entre os esquerdistas que se preocupam com grandes desigualdades econômicas que surgiram depois de três décadas de reformas de livre mercado e aqueles que querem acelerar essas reformas.

A divisão se revelou dramaticamente neste ano na queda do membro do Politburo Bo Xilai, o favorito da esquerda, em um escândalo de assassinato em que sua mulher estava envolvida e foi presa. Bo foi expulso do partido e deve ser julgado por acusações de corrupção.

"Se você estender o (número de candidatos), o nível de incerteza deixa o jogo aberto e permite que as pessoas compitam e talvez formem coligações dentro do partido", disse Cabestan, da Hong Kong Baptist University. "Isso abre o jogo em ambas as direções - para os amigos de Bo Xilai também", acrescentou.

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