AFP PHOTO / PASCAL GUYOT
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Líderes da direita francesa querem substituir candidato

Embora François Fillon resista à pressão para abandonar a corrida eleitoral, demissão de assessores gera incerteza entre republicanos 

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2017 | 21h09

PARIS - Abalado pelo escândalo de corrupção e desvio de verbas públicas e minado pelas defecções em série, o candidato do partido Republicanos (direita) à presidência da França, François Fillon, transformou-se em um peso para os eleitores conservadores. Com 19% das intenções de voto e em terceiro lugar na maioria das pesquisas, o ex-primeiro-ministro tem um escore inferior ao de seu ex-rival de primárias, o também ex-premiê Alain Juppé, que lideraria a corrida ao Palácio do Eliseu se fosse candidato.

Em uma simulação realizada pelo instituto Odoxa, caso Juppé substitua Fillon como candidato republicano a campanha viveria um triplo empate: 26,5% para o conservador, 25% para Emmanuel Macron e 24% para Marine Le Pen. Em uma campanha acirrada, marcada pela renovação do quadro político, por reviravoltas e por um prognóstico difícil de prever, a diferença de 7,5% entre o desempenho de Fillon e o de Juppé pode ser determinante para colocar os conservadores de volta no Palácio do Eliseu ou nem sequer chegar ao segundo turno.

Por isso a hipótese de uma substituição na liderança dos republicanos vem crescendo à medida que as defecções no campo de Fillon continuam a aumentar. De acordo com um levantamento realizado pelo jornal Libération, o número de membros do partido que anunciaram a retirada do apoio ao ex-premiê subiu de 77 na manhã desta sexta-feira para 139 no final da noite. A maior parte considera o escândalo que envolve a mulher e dois filhos do candidato, suspeitos de terem exercido empregos fictícios no gabinete de Fillon no Parlamento, como um golpe mortal nas ambições republicanas de recuperar o Palácio do Eliseu após cinco anos de governo socialista de François Hollande.

Nesta sexta, três defecções chamaram mais a atenção: a do diretor de campanha, Patrick Stefanini, a do porta-voz, Thierry Solère, e a do deputado e ex-ministro dos Transportes Dominique Boussereau, um fiel amigo do candidato. "A razão de minha decisão é sua denúncia pela Justiça. Ele afirmou aos franceses que se fosse denunciado não seria candidato, e logo não está mais em condições de levar em frente a campanha da direita e do centro", argumentou Solère, que também evocou as críticas feitas por Fillon aos magistrados. "Quando se quer ser presidente da República, não se pode questionar as instituições."

Outro a pedir a renúncia foi o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, que mesmo afastado do partido continua influenciando a direita na França. "Fillon não pode mais ser candidato porque não pode conduzir uma campanha consistente para defender ideias e um ideal republicano e democrático", afirmou.

Diante da pressão, Fillon respondeu com a publicação de um vídeo na internet no final da tarde no qual convocou seus apoiadores para um grande ato no Trocadero, junto à torre Eiffel, em Paris, neste domingo. "Eu lhes digo com gravidade: não deixem ninguém fazer a escolha por vocês", disse. "Eu peço que resistam."

O conservador sabe que pode contar o apoio da ala católica do partido, que o apoia por suas posições críticas a questões como o abordo e o casamento homossexual. Mas, nos bastidores da legenda, Alain Juppé teria confidenciado a seus assessores que estaria pronto a assumir a candidatura caso a pressão pela renúncia se torne insustentável. Os dois disputaram o segundo turno das prévias republicanas, vencidas por Fillon por 66,5%, ou 2,9 milhões de votos, contra 33,5%, ou 1,4 milhão, e agora travam uma disputa interna no partido.

Nas últimas horas, as consultas se multiplicam no campo republicano, no qual o ex-presidente Nicolas Sarkozy seria o fiel da balança. Apoiador de Fillon, o chefe de Estado que exerceu entre 2007 e 2012, mas ficou em terceiro lugar nas prévias, teria restrições ao nome de Juppé e defenderia a escolha do senador François Baroin, 51 anos, um dos nomes cogitados para o cargo de primeiro-ministro em caso de vitória republicana.

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