Líderes do IRA querem paz; mas militantes continuam armados

O último relatório da Comissão Independente de Controle (IMC) sobre as atividades do Exercito Republicano Irlandês (IRA), o mais otimista até o momento, facilita o caminho para restaurar nos próximos meses a autonomia da Irlanda do Norte, suspensa desde outubro de 2002.Pelo menos, é o que pensam os Governos britânico e irlandês após a publicação da décima análise da IMC. Os dois consideraram o relatório "oportuno" e "útil".Os quatro membros da Comissão se disseram "absolutamente seguros de que a direção do IRA se comprometeu a seguir um caminho pacífico", como havia prometido em julho, quando anunciou o fim da "luta armada".Em fevereiro, a Comissão chegou a duvidar que o IRA tivesse destruído todos seus arsenais, como havia afirmado em setembro de 2005 a Comissão Internacional Independente de Desarmamento (IIDC), presidida pelo general canadense reformado John de Chastelain. Na ocasião, a IMC denunciou que algumas unidades haviam mantido parte de seu arsenal para "desafiar" o comando do grupo.O documento admite que importantes membros do grupo terrorista continuam ligados a lucrativas atividades ilegais. Mas destaca os "grandes esforços" da sua cúpula "para que o movimento apóie seus objetivos", uma tarefa que chamou de "grande desafio".O relatório indica que os comandantes do IRA estão desencorajando seus membros de participarem de motins ou ações criminosas, como contrabando de combustível e cigarro. Afirma ainda que o grupo parece ter encerrado o recrutamento e atividades de espionagem. A comissão afirma que os membros do IRA não cometeram tiroteios de dezembro de 2005 até fevereiro, o período de três meses coberto pelo relatório. O documento aponta ainda que alguns membros mantiveram uma quantidade desconhecida de armas quando comandantes do IRA entregaram suas armas em setembro. Mas afirma que o volume de armamento nas mãos de membros do IRA não é significativo em comparação ao que foi entregue e não deve gerar duvidas sobre o comprometimento dos líderes do grupo com a paz. O ministro britânico para a Iralanda do Norte, Peter Hain, afirmou nesta quarta-feira que o relatório é uma prova a mais do compromisso do IRA para com o processo de paz. "O Governo acredita que a avaliação ajuda a gerar confiança na Irlanda do Norte", disse.Na Irlanda, até o ministro de Justiça e Interior, Michael McDowell, um dos críticos mais ferozes do IRA no atual governo, admitiu avanços. Para ele, o relatório é "positivo e oportuno".Formação do governo Há poucas semanas, Londres e Dublin deram um ultimato aos partidos norte-irlandeses. Até o dia 24 de novembro, católicos e protestantes terão que formar um executivo compartilhando o poder.A primeira etapa do calendário começa no dia 15 de maio, com a reativação da Assembléia norte-irlandesa. A missão do Parlamento será estabelecer o futuro Executivo e discutir problemas locais.McDowell alerta para um possível obstáculo no processo. Ele teme a má influência da atividade criminosa de membros do IRA, acusados pela IMC de participação em roubos, contrabando e lavagem de dinheiro. A direção do grupo não autoriza as práticas.Até o momento, os esforços de negociação têm esbarrado na recusa do Partido Democrático Unionista (DUP), do reverendo Ian Paisley, majoritário na região, de formar um Governo com o Sinn Féin, braço político do IRA e segunda maior força política.Para os unionistas radicais, apesar das promessas de paz do Sinn Féin, a implicação do IRA em atividades paramilitares e criminosas o desqualificam como parceiro num processo democrático.Além disso, o DUP ainda não esquece o assalto à principal agência do Northern Bank de Belfast, em dezembro de 2004, de onde foram levados 40 milhões de libras. Outra ferida foi o assassinato, um mês depois, do católico Robert McCartney. Os dois crimes foram atribuídos ao IRA pela IMC. A comissão disse que ainda não chegou a conclusões sobre dois crimes cometidos este mês na Irlanda com possíveis ligações com o IRA: o assassinato do ex-oficial de Sinn Fein, Denis Donaldson e o seqüestro de uma carregamento de vodka. Contudo, agentes de inteligência do Reino Unido afirmam que comandantes do IRA não ordenaram o assassinato de Donaldson. O relatório alerta ainda para os grupos paramilitares em atividade na Irlanda do Norte. Tanto os dissidentes republicanos quanto os protestantes continuam se armando e recrutando voluntários, o que representa uma ameaça à paz na província.A autonomia da Irlanda do Norte foi suspensa em 2002. O motivo foi um falso caso de espionagem do IRA em escritórios do Castelo de Stormont, sede da Assembléia regional.

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