Líderes do Khmer Vermelho negam acusações em tribunal

Os últimos dois líderes sobreviventes do regime radical do Khmer Vermelho no Camboja, julgados por genocídio e outros crimes de guerra, divulgaram sua defesa final nesta quinta-feira, tentando se distancir das mortes de mais de 1,7 milhão de pessoas que perderam a vida durante seu governo.

Agência Estado

31 de outubro de 2013 | 12h49

O ex-chefe de Estado Khieu Samphan, de 87 anos, e Nuon Chea, de 82, que foi o principal ideólogo do grupo e 2º na liderança, fizeram longas explanações durante as declarações finais do tribunal apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na capital cambojana, Phnom Penh.

O veredicto não deve sair até a primeira metade de 2014, mais de dois anos após o início do julgamento.

Pouco depois de tomar Phnom Penh, em abril de 1975, o Khmer Vermelho expulsou cerca de 1 milhão de pessoas - dentre elas até mesmo pacientes hospitalares - da capital e as encaminhou para o campo numa tentativa de criar uma utopia agrária comunista.

Quando o experimento terminou, em 1979, com uma invasão vietnamita, cerca de 2 milhões de pessoas estavam mortas, a maioria por fome, negligência médica, trabalho em condições análogas à escravidão e execuções. Seus corpos foram enterrados em rasas valas comuns que ainda pontuam o país.

"É fácil dizer que eu deveria saber de tudo, entender tudo e, assim, ter intervindo ou corrigido a situação a tempo", disse Khieu Samphan, de forma desafiadora, ao tribunal. "Vocês realmente acham que aquilo era o que eu queria para o meu povo?", perguntou. "A verdade é que eu não tinha qualquer poder."

Nuon Chea também defendeu suas ações, dizendo que nunca ordenou aos quadros do Khmer Vermelho que "destratassem ou matassem pessoas, as privasse de comida ou que cometessem genocídio".

Ao contrário de Khieu Samphan, porém, Nuon Chea aceitou a "responsabilidade moral" pelas mortes, repetindo seus esforços anteriores para se distanciar dos crimes.

"Eu gostaria de sinceramente pedir desculpas ao público, às vítimas, às famílias e ao povo cambojano", disse o frágil ex-líder, falando constantemente enquanto lia suas notas. "Eu quero demonstrar meu remorso e rezar pelas almas perdias" durante o governo do Khmer Vermelho.

As palavras de Nuon Chea não devem levar qualquer consolo para os sobreviventes, centenas dos quais lotavam o tribunal e as áreas próximas.

"Ele está apenas tentando enganar o tribunal para que possa ser libertado", disse Bin Siv Lang, de 56 anos, que perdeu 11 parentes durante o governo do Khmer Vermelho. "Se ele não tivesse emitido ordens para matar as pessoas, seus subordinados não teriam feito o que fizeram."

Outros réus do caso morreram ou não têm capacidade física para enfrentar o julgamento. O ministro de Relações Exteriores do Khmer Vermelho, Ieng Sary, morreu em março e seu mulher, Ieng Thirith, a ministra de Assuntos Sociais do regime, foi declarada em setembro de 2012 fisicamente incapaz de participar do julgamento, após ter sido diagnosticada com demência. O principal líder do grupo, Pol Pot, morreu em 1998.

O tribunal, iniciado em 2006, só condenou um réu até agora, o diretor prisional Kaing Guek Eav, que foi sentenciado à prisão perpétua em 2011. Fonte: Associated Press.

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