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Líderes em Teerã tentam 'vender' acordo como positivo

Presidente diz que o Ocidente aceitou o direito iraniano de enriquecer urânio; oposição quer que Parlamento avalie pacto

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / LAUSANNE, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2015 | 02h04

Depois de negociar com as grandes potências internacionais, o governo iraniano tem agora um novo desafio: convencer os setores mais conservadores do país a aceitar o pacto. Ontem, o presidente iraniano, Hassan Rohani, declarou que o acordo é uma vitória para o Irã e seus negociadores foram recebidos como heróis ao desembarcar em Teerã.

Mas porta-vozes dos grupos mais conservadores já acusaram Rohani de ter cedido demais, sem receber garantias de que as sanções serão suspensas.

Num esforço de vender o acordo, Rohani declarou ontem que o entendimento obtido em Lausanne "abre uma nova página" da história do Irã com o mundo. Mas também mandou seu: "Hoje é um dia que ficará marcado na história do Irã. Alguns pensam que temos de lutar ou se render aos líderes mundiais. Dissemos que há uma terceira via. Podemos ter uma cooperação com o mundo".

Ao contrário do discurso dos líderes ocidentais, Rohani insistiu que o acordo é um sinal de que o mundo aceitou que o Irã pode enriquecer urânio em seu solo. Mas o acordo permite apenas o enriquecimento ao nível de 3,67%, considerado insignificante, e reduz o número de centrífugas de 19 mil para 6 mil.

Ele também garantiu ao Ocidente que vai honrar o acordo: "Não trapaceamos. Não temos duas caras. Se nos comprometemos com alguma coisa, agiremos de acordo com o que foi determinado. Claro que isso depende que o outro lado também cumpra suas promessas."

Orações. Outra medida adotada foi a de introduzir elogios claros ao acordo nas orações de sexta-feira. "A declaração de Lausanne foi um sucesso", afirmou o aiatolá Imami Kashani, um dos principais líderes religiosos do Irã, em numa espécie de bênção ao acordo. "O mundo finalmente aceitou que o Irã tem o direito de ter um programa nuclear com fins pacíficos", disse. "O time negociador é firme, sábio e calmo. O líder supremo dá apoio a seus representantes e realmente temos de dar os parabéns a eles", concluiu, referindo-se ao líder supremo Ali Khamenei.

Em uma das principais mesquitas de Teerã, a oração foi precedida pelo discurso de um dos conselheiros de Rohani, Mohammad Nahavandian, que insistiu na vitória do Irã sobre o Ocidente. "Aqueles que se opuseram a que tivéssemos o ciclo completo do combustível (nuclear) não mais se opõem. No lugar de sanções, falam agora em cooperar. Não cedemos e aqueles que se opõe agora ao acordo são inimigos, alinhados com os sionistas", disse.

Acusações. Hossein Shariatmadari, editor do jornal estatal Kayhan e considerado como um porta-voz dos grupos mais radicais, elevou o tom contra o acordo: "Demos a eles um cavalo selado e eles nos devolveram um com rédeas quebradas."

Deputados iranianos também criticaram o acordo e alertaram que vão exigir que o texto seja aprovado antes pelo Parlamento. "Não vamos concordar com um acordo que não leve ao levantamento total das sanções", declarou.

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