Líderes franceses se voltam para as eleições legislativas

Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen estão emplena campanha para o segundo turno das eleições presidenciaisdo próximo domingo, mas suas cabeças estão inteiramente voltadaspara as eleições legislativas de meados de junho. Ninguém temdúvida de que o atual presidente obterá uma grande votação nãopor sua capacidade de reunir forças políticas em torno de suacandidatura, mas pelo fato de que o pleito se converteu numplebiscito anti-Le Pen - apoiado por quase todas as forçaspolíticas do país, incluindo a esquerda e os sindicatos.Trata-se de uma verdadeira frente republicana para barrar aascensão da extrema direita.Nessa fase da campanha, os institutos de pesquisa - que nãotiveram no primeiro turno a capacidade de prever a proximidadedo perigo ultraconservador - se mostram bem mais discretos eprudentes na divulgação das tendências do eleitorado. Le Pen jánão discute a possibilidade de vitória eleitoral e tem afirmadoque a partir de 30% dos votos sua vitória política estágarantida.Chirac já estuda a designação de um primeiro-ministro parasubstituir Jospin a partir do dia 6, cuja missão principal serágarantir uma confortável maioria parlamentar - sem a qual elenão terá condições de impor sua política. Nomes como NicolasSarkozy, François Fillon, Douste Blazy e outros circulam sem quetenha havido qualquer vazamento sobre a escolha definitiva dosoberano.A antiga maioria plural, formada por socialistas, verdes,comunistas e radicais de esquerda, ainda atordoada com oresultado eleitoral do último domingo, procura transformar-se em"esquerda unida". É apenas uma mudança semântica, praticamentecom os mesmos homens e mulheres - incluindo Jospin, que,sexta-feira, sob intensa pressão de seu ministério e amigos,quebrou o silêncio que mantinha desde a derrota eleitoral erecomendou a seu eleitorado a repudiar Le Pen e votar em Chirac,seu velho adversário. Jospin refletiu também sobre o comentáriofeito pelo ex-primeiro-ministro Pierre Mauroy, que durante acampanha viu falhas no discurso centrista do primeiro-ministro echegou a adverti-lo: "Afinal, falar em classe operária nãochega a ser um palavrão na boca de um socialista."Quanto à extrema esquerda (mais de 10% dos votos), os doisprincipais partidos, Luta Operária e Liga ComunistaRevolucionária, juntam seus trapos para disputar as eleiçõeslegislativas sem nenhum tipo de aliança com os socialistas.Com 30% dos votos ou mais, Le Pen continuaria sendo umfantasma ameaçando a França pelo menos até meados de junho, atéque seja conhecido o resultado do pleito parlamentar. A projeçãodesse resultado no chamado "terceiro turno", isto é, naseleições para a Assembléia Nacional, apenas um mês depois,permitirá à Frente Nacional (de Le Pen) manter seus candidatosem cerca de 250 distritos eleitorais no segundo turno. Naeleição legislativa de 1997, a participação dos candidatos daFrente Nacional não chegou a cem.Le Pen tem prometido renegociar a participação da França naUnião Européia, denunciando o Tratado de Maastricht;restabelecer a pena de morte; criar "campos de trânsito", ondeos estrangeiros desempregados aguardariam o momento em queseriam expulsos para seus países de origem. Esse discurso únicona França arrepia e atemoriza os partidos da burguesia privada(RPR, UDF e DL) ou da burguesia pública (PS, PCF e verdes), comoestão sendo definidos os partidos tradicionais da direita eesquerda depois da demonstração de fragilidade eleitoral dedomingo - todas essas forças juntas só conseguiram reunir 36%dos votos do eleitorado francês.Com a presença de candidatos lepenistas em quase metade dascircunscrições, os conservadores e liberais que procuram se unirem torno de um novo partido, a União da Maioria Presidencial,poderão ser confrontados a negociações triangulares indigestas.A esquerda espera que seu eleitorado, traumatizado pela presençade Le Pen no segundo turno do pleito presidencial, possa evitar adispersão dos votos e limitar o abstencionismo - dois fatoresque contribuíram para o Waterloo socialista.Não se deve esquecer que a esquerda pode também serprejudicada pela manutenção de candidaturas da extrema direitano segundo turno, na medida que uma grande parte do eleitoradopopular e comunista votou em Le Pen. Na região do Nord-Pas deCalais, e em cidades como Lille, Dunquerque, Calais,administradas por socialistas e comunistas, Le Pen cresceu muitoe chegou mesmo a se impor em diversas delas.Os cenários são diversos e projetam desde uma ampla vitóriados gaullistas até uma inesperada vitória da esquerda, o querestabeleceria a situação anterior de coabitação. Nesse caso,não se descarta uma crise política e institucional, diante dainviabilidade de governar depois destes últimos cinco anos. Ahipótese mais viável é que a direita clássica possa obter umamaioria relativa na Assembléia Nacional, uma esquerda aindarepresentativa passe para a oposição e a extrema direita façasua entrada no Parlamento.Quanto à meta atual do candidato extremista, não é chegar apresidência da república, mas sim eleger uma bancada noParlamento. O que seu partido não conseguiu até agora em razãodo sistema eleitoral majoritário que privilegia as alianças eprevê a desistência dos candidatos menos votados em favor dosmelhores colocados no primeiro turno. Como ninguém quer saber dealiança com a extrema direita, ela tem permanecido isolada semconseguir eleger uma bancada de deputados, ao contrário do queocorre no pleito para o Parlamento Europeu, onde o escrutínio éproporcional. Agora, Le Pen tem possibilidade de eleger umaprimeira bancada, entre cinco ou dez deputados segundo certasestimativas, mas todos com disposição de fazer muito barulho naAssembléia Nacional Francesa.

Agencia Estado,

27 de abril de 2002 | 14h53

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