Presidência do Irã
Presidência do Irã

Líderes iranianos negociarão com Trump, mais cedo ou mais tarde

Quanto mais tarde for a negociação, melhor para as autoridades em Teerã

Jason Rezaian / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2019 | 21h35

O anúncio do Irã na segunda-feira de que ultrapassou o limite de urânio de baixo enriquecimento que poderia armazenar sob o acordo nuclear de 2015 é um importante acontecimento.

Mas na longa e tortuosa história das tensões dos EUA com a República  Islâmica não é tão importante assim. De fato, à luz das greves militares que estavam sendo planejadas em resposta à derrubada de um drone dos Estados Unidos, este último aumento nos riscos era esperado.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, disse que a decisão de estocar urânio além do limite de 300 quilos do acordo foi um alerta para a Europa. Ele informou que o Irã também pode reduzir outros compromissos firmados no acordo se as outras partes - especificamente a União Europeia - não atender às expectativas do acordo.

Mas Teerã também está aproveitando a decisão para enviar uma mensagem a Washington.

Os dois lados têm acirrado o antagonismo por mais de um ano. É preciso lembrar que foi o presidente Donald Trump que decidiu retirar os Estados Unidos do acordo em maio de 2018, dando início ao que seria mais bem descrito como uma crise fabricada.

Até agora, apesar do aumento de sanções punitivas de Washington contra o Irã e da retórica aquecida nas duas capitais, os líderes iranianos adotaram uma posição de esperar para ver o que acontece, na esperança de manter o acordo pelo maior tempo possível, enquanto esperavam que a Europa começasse a cumprir o prometido em relação ao alívio econômico.

Os cálculos de Teerã, porém, parecem estar mudando, e o regime agora está testando a paciência e a flexibilidade das potências mundiais em um momento em que todos os canais de comunicação com os Estados Unidos foram esgotados.

Mas, ao mesmo tempo, o improvisado encontro de Trump com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, no fim de semana, certamente despertou a curiosidade da República Islâmica sobre a possibilidade de um esforço semelhante.

Trump tem defendido, há meses, em público e privadamente, uma reunião com o presidente do Irã, Hassan Rohani, ou com o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

Ele afirma que sua única pré-condição para novas negociações com o Irã seria que o país concordasse em jamais obter uma arma nuclear. Caso isso aconteça, Trump promete: “Eles terão um país rico, serão muito felizes, e eu serei o melhor amigo deles. Espero que isso aconteça.”

Mas, por enquanto, os líderes do Irã estão se fazendo de difíceis. “Eu não vejo Trump como merecedor de qualquer troca de mensagens, e não tenho nenhuma resposta para ele, agora ou no futuro”, disse Khamenei ao primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, que fez uma visita oficial a Teerã no mês passado.

A história, no entanto, mostra que Khamenei provavelmente concordará com novas negociações, mas talvez não por enquanto. Por um lado, um abrandamento de sua posição seria um sinal de fraqueza com o qual ele dificilmente poderia arcar frente a uma população cada vez mais inquieta. Mas, talvez mais importante ainda, se o próprio histórico de Trump for um indicativo, sua oferta de negociar dificilmente será rescindida.

No curto prazo, o Irã esperava que governos e empresas da UE resistissem à pressão dos EUA e cumprissem compromissos financeiros sob o acordo. Apesar de um novo mecanismo de permuta projetado para manter o dinheiro do comércio com a Europa fluindo para o Irã, os resultados foram insignificantes.

Os Estados Unidos deixaram clara sua posição, pois sancionarão entidades que considera estarem negociando com o Irã. Brian Hook, representante especial do Departamento de Estado para o Irã, disse na semana passada: “Não se pode fazer negócios com os Estados Unidos e com o Irã”.

Essa não é uma escolha difícil para qualquer empreendimento internacional. Os investidores não se arriscarão a colocar seu dinheiro no Irã se isso vier a comprometer seu comércio com os Estados Unidos.

O Irã espera para ver o que acontecerá nas eleições presidenciais dos EUA em 2020. Os líderes em Teerã estão convencidos de que podem superar as dificuldades econômicas que o país enfrenta, durante os próximos 18 meses pelo menos.

Mas eles estão começando a aceitar a possibilidade de que Trump seja reeleito. Eles sabem que o status quo de um não-relacionamento tenso com Washington, sob brutais sanções econômicas não será sustentável por mais cinco anos.

Já foi dito antes que os líderes do Irã jogam xadrez, enquanto os líderes dos EUA jogam damas. Isso está dando crédito demais a Teerã.

Uma analogia muito melhor para a atual situação seria um jogo de pôquer de altas apostas - em que, como de costume, os líderes do Irã têm uma pequena pilha de fichas e estão exagerando em uma rodada ruim. Agora Trump mostrou todas as suas cartas. A questão é: quem vai desistir primeiro? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É ESCRITOR DE GLOBAL OPINIONS. SERVIU COMO CORRESPONDENTE DO 'W.POST' EM TEERÃ ENTRE 2012 E 2016. PASSOU 544 DIAS PRESO INJUSTAMENTE PELAS AUTORIDADES IRANIANAS ATÉ SUA LIBERTAÇÃO EM JANEIRO DE 2016.

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