Líderes latino-americanos falam de integração e pobreza em Havana

Os líderes da América Latina abordarão nesta terça-feira em Cuba como avançar na integração econômica regional e na luta contra a pobreza durante a cúpula vista como um afago na ilha diante da política isolacionista dos Estados Unidos.

ROSA TANIA VALDÉS E NELSON ACOSTA, Reuters

28 de janeiro de 2014 | 15h56

Durante os dois dias do encontro da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), mandatários de credos políticos distintos, como a brasileira Dilma Rousseff, o mexicano Enrique Peña Nieto, o colombiano Juan Manuel Santos, a argentina Cristina Kirchner e o venezuelano Nicolás Maduro, compartilharão suas visões sobre estes temas.

"Cabe aos países da América Latina a busca de soluções aos grandes desafios que enfrentamos como região", disse Peña Nieto ao aterrissar em Havana na noite de segunda-feira.

"Daí a importância de compartilhar experiências e práticas melhores para reverter a desigualdade social", acrescentou.

Mas o assunto que promete monopolizar a atenção é o processo de integração regional de Cuba, que está abrindo progressivamente sua economia de estilo soviético.

Em uma mensagem clara a Washington, o secretário da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, irá se converter no primeiro responsável do organismo que pisa na ilha desde que foi expulsa do sistema interamericano há mais de meio século por pressão da Casa Branca.

Cuba disse que Insulza foi convidado por cortesia diplomática e esclareceu que não pretende regressar à OEA, que considera um instrumento de Washington. Entretanto, a visita rompe um tabu da Guerra Fria.

Durante a cúpula provavelmente se aprovará uma condenação ao embargo econômico que os Estados Unidos aplicam há mais de meio século à ilha de governo comunista. Os líderes também devem dar respaldo à reclamação da Argentina ante o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas.

A reunião da Celac acontece depois de alguns gestos tímidos de aproximação entre Cuba e Estados Unidos, como um aperto de mãos entre Barack Obama e Raúl Castro durante o funeral de Nelson Mandela em dezembro. Ocorre também quando Raúl busca expandir o papel do setor privado para modernizar a economia socialista da ilha e relaxar restrições como a de viajar ao exterior.

"Estou muito interessado no processo de mudança em curso em Cuba, e por isso tenho muito interesse em conhecer o que se está fazendo e como as Nações Unidas podem apoiar este processo", disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao aterrissar em Havana para participar como convidado da cúpula.

O chefe da ONU se reuniu na segunda-feira com Raúl Castro, visitou um centro que defende os direitos dos homossexuais e até cortou o cabelo em uma barbearia do centro histórico de Havana, um dos milhares de pequenos negócios particulares surgidos com a abertura econômica.

ESTREITANDO LAÇOS

O processo de aproximação regional de Cuba não ficou só nas palavras.

A presidente Dilma Rousseff inaugurou na segunda-feira a primeira fase do porto de Mariel, um projeto de 900 milhões de dólares financiado em grande medida pelo Brasil e essencial para o desenvolvimento econômico da ilha.

Mariel é uma aposta do Brasil na normalização das relações comerciais com Washington, que responsáveis brasileiros asseguram que acontecerá cedo ou tarde. E o projeto poderia despertar o interesse de outras empresas latino-americanas.

Havana se preparou para receber os líderes da região. As principais avenidas foram iluminadas e reparadas e a segurança policial foi reforçada. Algumas escolas se preparavam para receber os dignatários, parte de um programa paralelo à cúpula para mostrar o desenvolvimento da educação pública na ilha.

Mas denúncias de repressão a dissidentes políticos nublaram o clima.

A Comissão Cubana de Direitos Humanos, um grupo ilegal mas tolerado pelo governo, disse que dezenas de pessoas foram detidas temporariamente durante a última semana ou obrigadas a permanecer em suas casas até o final da cúpula.

"O governo desencadeou uma onda de repressão política", disse à Reuters o líder da Comissão, Elizardo Sánchez. "Acontece que o governo de Cuba é uma exceção dentro da Celac, porque não aceita os padrões internacionais, sobretudo em matéria de direitos civis e políticos."

Fontes do governo não estavam disponíveis para comentar as informações. As autoridades dizem que os dissidentes são financiados pelos Estados Unidos para tentar acabar com o sistema socialista.

A Celac, que reúne 33 países da região, foi criada há três anos por iniciativa do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez como uma alternativa à OEA, onde tradicionalmente os Estados Unidos têm muita influência.

Ao final da cúpula, as autoridades cubanas trasferirão a presidência pro tempore do foro regional à Costa Rica.

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