REUTERS/Marcos Brindicci
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Líderes ligam tecnologia a triunfo eleitoral

Para ex-chefes de Estado, candidatos capazes de falar diretamente com eleitores se sobrepõem a partidos tradicionais

Márcio Resende, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2017 | 21h42

BUENOS AIRES - Em seminário entre ex-presidentes, empresários e acadêmicos reunidos na capital argentina, líderes políticos de Brasil, Chile, Uruguai, Argentina e Espanha concluíram que as novas tecnologias desorganizaram a sociedade, desmontaram a capacidade dos partidos tradicionais e propiciaram o surgimento de propostas como Donald Trump, Marine Le Pen ou o Brexit. “Diante da velocidade da mudança, a primeira atitude é se aproveitar do medo com um discurso reacionário. O discurso do medo tem sucesso com etiqueta de esquerda ou de direita”, disse o ex-premiê espanhol, Felipe González. 

“Com a modernização tecnológica e as transformações do sistema produtivo, os partidos políticos não são mais condutores da vontade do cidadão. Quem tiver capacidade de enviar uma mensagem, para o bem ou para o mal, terá vantagens”, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. 

“Alguém como Trump pode captar um sentimento momentâneo. Isso pode acontecer no Brasil, porque os partidos tradicionais não correspondem à sociedade atual, não perceberam as mudanças tecnológicas e muitas vezes não sabem usar meios contemporâneos para chegar às pessoas”, afirmou FHC. 

“Os partidos não têm mais capacidade de conduzir o voto. Aqueles que tiverem capacidade de falar podem ter sucesso, mesmo até envolvidos em corrupção, pois podem usar os instrumentos verbais para aglutinar o que hoje está fragmentado”, concluiu o ex-presidente brasileiro.

Questionado pelo moderador, o ex-presidente uruguaio Julio María Sanguinetti, sobre os inimigos internos de um país como a corrupção brasileira, FHC também apontou o processo de modernização tecnológica como crucial para o avanço das investigações e uma participação mais ampla da cidadania.

“O movimento de transformação tecnológica desorganizou a sociedade que se dividiu entre a Promotoria, a polícia e os meios de comunicação, de um lado, e políticos interessados nas formas tradicionais de sustentação do governo, do outro. A Promotoria e os juízes não funcionam mais como parte de um sistema de poder, têm um instrumento de comunicação e colocaram à disposição do cidadão as informações que tinham”, sustentou.

Para o ex-presidente chileno, Ricardo Lagos, "a utilização das novas tecnologias como forma de governar será indispensável".

"O governo do futuro deverá ser capaz de ampliar a capacidade escutar e de dar resposta às novas demandas. Está em questão a legitimidade das nossas instituições. Há uma cidadania que ganhou poder com mais comunicação e para a qual o ato de votar não é mais suficiente. Tem novas exigências. Se quisermos democracia participativa, virão novas instituições", apostou.

"Ao reduzirmos a pobreza, a demanda da classe média é maior. Ainda não entendemos essas demandas que nos chegam. Nessa capacidade está o futuro. Esse é o atual desafio da América Latina", refletiu.

"Os limites nacionais não são mais respeitados pela internet. As pessoas comparam com outros povos", acrescentou Fernando Henrique Cardoso. "Há uma revolução das expectativas. Quando ganha poder, o individuo começa a sua insatisfação enquanto aqueles que já estão na comodidade querem que se preserve o que já têm", comparou o presidente argentino, Mauricio Macri, sobre as crescentes demandas sociais a partir do acesso às novas tecnologias.

O encontro de ex-presidentes, empresários e acadêmicos em Buenos Aires é promovido pela Fundação Círculo de Montevidéu, uma iniciativa de Julio Maria Sanguinetti integrado por governantes da América Latina e Europa, além de dirigentes de organizações internacionais.

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