Líderes sempre sofrem um tropeço

Stan Greenberg, um dos mais experientes peritos em pesquisas de opinião dos EUA, resume a lição chave que aprendeu em sondagens para Bill Clinton, Nelson Mandela, Ehud Barak e Tony Blair: "Líderes ousados em tempos tumultuosos sempre sofrem ao menos um tropeço." Eles nunca se apresentam e oferecem a escala de progresso e mudança que prometeram - não porque sejam cínicos, mas porque os acontecimentos conspiram contra e eles encontram centros de poder competidores. O que distingue os melhores líderes, diz ele, é que eles aprendem com seus tropeços, ajustam, persistem e se saem bem.O presidente Barack Obama ainda não teve o seu. Ele apenas começou. E muitas pessoas, nos EUA e no exterior, estão torcendo por seu sucesso. Mas ele está, decididamente, enfrentando tempos tumultuosos.Então, quando Greenberg anunciou seu novo livro, Dispatches from de War Room (Despachos da Sala de Guerra, em tradução literal) - um relato sobre como os líderes mundiais para os quais ele realizou pesquisas lidaram com seus tropeços - eu pensei: "Esses insights poderiam ser muito úteis agora." Greenberg começa com Bill Clinton. Uma de suas memórias foi tentar julgar como os eleitores reagiriam quando Clinton quebrou sua promessa de cortar os impostos da classe média, pouco depois de sua eleição em 1992. O que mais o impressionou, disse Greenberg, foi que esses eleitores "simplesmente não acreditavam que algum político reduziria seus impostos." Não era assim que eles estavam julgando Clinton."Eles não ligavam para as promessas específicas dele", disse Greenberg. "Queriam que o novo presidente agisse no interesse econômico de longo prazo do país. Queriam ter certeza de que todos faziam parte da solução." Lição: "Não ser literal demais sobre promessas de campanha", disse Greenberg. "Há muita oportunidade para governar, se as pessoas acharem que se está agindo nos interesses de longo prazo do país e se está trabalhando para elas." Tony Blair tropeçou na questão da identidade básica do New Labor (Novo Trabalhismo) como partido. Os trabalhistas estavam fora do poder havia 18 anos. Eles voltaram graças à habilidade de Blair para tranquilizar os eleitores de que eles poderiam confiar em que o Partido Trabalhista seria fiscalmente prudente e, ao mesmo tempo, modernizaria os decrépitos hospitais e escolas públicas da Grã-Bretanha.Na verdade, Blair teve de fazer isso progressivamente. Quando, já com três anos de mandato, a falta de investimentos novos tornou-se evidente, Blair tropeçou na questão da confiança. "Depois disso, Blair e o New Labor ficaram associados para sempre à ideia de prometer muito e não cumprir", disse Greenberg.Lição: Ser honesto com o público logo no começo quando enfrentar desafios enormes. Ele o deixará abandonar uma promessa de campanha literal - se você for sincero desde o início sobre as dificuldades e o tempo que levará para haver progressos.Ehud Barak tornou-se primeiro-ministro israelense em 1999, e um pilar de sua campanha foi que Jerusalém permaneceria a capital eterna e indivisível de Israel. Mas, em Camp David, em 2000, Barak ofereceu aos palestinos uma divisão de Jerusalém. O mais espantoso, disse Greenberg, foi a presteza com que o público israelense aceitou essa guinada. Uma vez quebrado o tabu sobre até insinuar uma divisão de Jerusalém, mesmo eleitores do Likud entrevistados por Greenberg começaram perguntando: "Por que deveríamos querer manter esses bairros palestinos?" Lição: "Nada está fora da mesa para um líder que queira adotar uma medida ousada" no interesse fundamental do país.Por fim, Nelson Mandela. Quatro anos após ele se tornar presidente da África do Sul, em 1994, "as pessoas se sentiam desmoralizadas pela falta de mudanças e sentiam que o Congresso Nacional Africano havia traído sua promessa", disse Greenberg. Ele não conseguira criar moradias e empregos, mas havia produzido muita corrupção e estava sob risco de perder sua autoridade moral." Isso foi duro de engolir para líderes do movimento de libertação, mas os cidadãos humildes queriam que seus líderes reconhecessem seu sofrimento. Lição: Mandela foi suficientemente humilde para dizer que eles não haviam trazido a mudança - sem colocar em questão o direito do CNA de governar. "Ele começou a contar uma história convincente que explicava por que os avanços eram lentos, apontava para áreas de progresso e permitia que as pessoas tivessem esperança sobre mudanças futuras", disse Greenberg.A grande lição para presidentes? Não se pode ser honesto demais na descrição de grandes problemas, ousado demais no oferta de grandes soluções, humilde demais no trato de grandes tropeções, prepotente demais ao recontar sua história e desinibido demais ao falar do que era previamente indizível. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK *Thomas Friedman é colunista

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