Líderes tribais afegãos pedem formação de governo provisório

Invocando a tradição para resolver uma disputa moderna, mais de 1.000 afegãos pediram nesta quinta-feira o fim das hostilidades ao Afeganistão e chamaram o antigo rei do país para ajudar na formação de um governo multiétnico. Eles também exigiram que "aqueles estrangeiros que aumentaram nossas misérias" deixem o país - numa referência ao suposto terrorista Osama bin Laden e a maioria árabe dos membros de grupo terrorista dele, a Al-Qaeda, abrigada no Afeganistão. "Eles não deveriam mais explorar a hospitalidade dos afegãos", afirmou uma resolução aprovada depois de uma reunião de dois dias da Conferência pela Paz e Unidade Nacional. Ela foi lida na língua afegã pashtu e traduzida mais tarde para o inglês. O encontro só de homens endossou a resolução numa jirga, ou reunião tradicional, realizada na cidade paquistanesa de Peshawar, na fronteira com o Afeganistão. A resolução de uma página apresentou o que chamam de blocos de construção de um novo governo que poderia ajudar a reconstruir o Afeganistão. Entre os pontos estão: - O antigo rei do Afeganistão, Mohammad Zaher Shah, exilado em Roma desde 1973, deveria unir-se a outras eminentes figuras afegãs para desempenharem um "papel efetivo, de acordo com sua política moderada e equilibrada, para pôr um fim nesta crise." - As "partes em luta do Afeganistão e EUA" deveriam "pôr fim a suas operações o mais rápido possível" - incluindo a tarefa "muito importante" de desarmar Cabul, a capital. - A atividade política de criação do novo governo deveria substituir a atividade militar. - Uma loya jirga, um grande conselho usado para tomar importantes decisões, deve ser convocada para decidir o futuro do Afeganistão. A resolução não defendeu diretamente a derrubada do regime taleban, apesar de os membros da conferência terem deixado claro que se trata de um objetivo-chave antes da formação de um novo governo. Os participantes - no geral, membros de tribos sulistas afegãs simpáticas à monarquia - estão tentando evitar o que chamaram de "um vácuo político" que poderia ocorrer caso os ataques aéreos anglo-americanos derrubem o Taleban. "Se esse vácuo for preenchido por um grupo particular através de operação militar", adverte a resolução, "poderia haver uma nova fase de derramamento de sangue e desordem e iria afligir nossa nação com nova infelicidade". O "grupo particular" é na verdade a Aliança do Norte, o grupo de oposição tentando retomar o Afeganistão do Taleban. Agentes de segurança paquistaneses checavam documentos no lado de fora do salão sob uma faixa onde se lia: "Bem-vindo à conferência pela paz e unidade nacional". Alguns participantes do encontro criticaram Bin Laden, o maior suspeito dos atentados de 11 de setembro nos EUA, por colocar o Afeganistão e seu povo na linha de fogo internacional. Sirkatib Mohammed Mangal, um ex-comandante na luta afegã contra a invasão soviética, disse que Bin Laden é um criminoso e não um convidado no Afeganistão. "Nos opomos à Al-Qaeda e sua atividades porque eles estão destruindo nosso país", afirmou. "Se Bin Laden está comprometido, ele deveria ir para a Arábia Saudita e travar sua chamada jihad lá ao invés de provocar a morte de afegãos". Mas num protesto no lado de fora do salão, vários manifestantes, observados por forças paquistanesas fortemente armadas, carregavam fotos de Bin Laden. "Rejeitamos o retorno do antigo rei Zaher Shah ao Afeganistão", disse um manifestante, Qari Shah Mohamed. Ele classificou a conferência de "uma conspiração comandada pela América contra nosso povo". O protesto foi convocado pelo Conselho de Defesa Afegão, composto por clérigos islâmicos paquistaneses que apóiam o Taleban. A loya jirga é uma expressão na língua pashtu que significa um grande encontro de idosos e é um tradicional método tribal de governança. Zaher Shah, que governou o Afeganistão de 1933 a 1973, tem hoje 87 anos. Leia o especial

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