Lieberman assume papel de ''padrinho''

A líder do Kadima, Tzipi Livni, venceu as eleições de 10 de fevereiro, mas é seu rival Binyamin Netanyahu, líder do Likud, que deverá formar o governo. Avigdor Lieberman, chefe do partido de extrema direita Israel Beiteinu, anunciou apoio ao Likud. Um paradoxo? Não, simples lógica. Livni venceu, mas por pequena margem e seu apoio mais próximo, o Partido Trabalhista, afundou. Netanyahu, também conhecido em Israel como ?Bibi?, pode reunir toda a direita israelense. Ele conta com as 15 cadeiras na Knesset (Parlamento) do partido de Lieberman e com as dos religiosos e ultranacionalistas.Lieberman, antigo leão de chácara da Moldávia, afirmou, curiosamente, que gostaria que Netanyahu formasse um governo amplo, abrangendo os "centristas" de Livni. Difícil imaginar Livni na mesma equipe de um fascista tão rude como ele.Lieberman assumiu o papel do "padrinho" e não só "coroou" Netanyahu, como vai tê-lo em suas mãos. Essa não é a única fraqueza de um provável governo Netanyahu. Lieberman e seus soldados russos são laicos. Como o Shas e outros partidos ortodoxos poderão coabitar com russos laicos e fascistas?E existem outros abacaxis. Lieberman é um "falcão" puro. Qualifica de estúpidas as ideias ventiladas em Washington, Paris e mesmo Tel-Aviv sobre o reconhecimento de um Estado palestino. Pior ainda, ele detesta os árabes-israelenses. Quer retirar a cidadania israelense de 100 mil árabes que vivem ao norte de Israel. Quanto aos demais, 1,2 milhão, pretende vigiá-los. E lança dúvida sobre eles, com o slogan "Sem lealdade não há cidadania". Segundo diz, os árabes não são leais e a solução é expulsá-los. Esse tipo de apoio não é confortável ao futuro governo. Especialmente por causa do outro "padrinho" de Israel, os EUA. Barack Obama não é George W. Bush. Na época de Bush, Israel contava com o apoio incondicional da Casa Branca. Agora as coisas devem mudar. Mesmo no auge de sua campanha, quando o voto de cada judeu era importante, Obama deixou claro que não pretendia apoiar todas as exigências do Likud. Ele quer a paz, certamente, mas uma paz equilibrada.Pode-se prever relações tempestuosas entre os países aliados. Hillary Clinton deve se lembrar dos ataques de cólera de seu marido contra Netanyahu quando este, então premiê, arruinou o plano de paz arquitetado por Dennis Ross, hoje conselheiro de Obama. Em suas memórias, Ross fala da cólera de Clinton quando Netanyahu renegou o compromisso assumido de libertar prisioneiros palestinos. "Esse tipo é um estrume", berrava Clinton. O antigo porta-voz da Casa Branca Joe Lockart, relatando as negociações de Camp David, retratou Netanyahu como "uma das pessoas mais odiosas com quem precisei me encontrar, mentiroso, trapaceiro".Se Netanyahu se tornar o chefe do governo, precisará apelar para seus talentos de ilusionista para não se ver encurralado entre o extremismo fascista antiárabe de Lieberman e a vontade de Obama. Mas, para complicar (ou simplificar?) o cenário, o temido Lieberman está sendo acusado de corrupção. * Gilles Lapouge é correspondente em Paris

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

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