Ligação de tragédias climáticas é controvertida

Principais institutos da Europa afirmam que enchentes na Ásia e o calor na Europa são parte do mesmo fenômeno climático, mas visão não é unânime

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

O possível vínculo entre as enchentes no Paquistão e na China e a onda de calor, a seca e os incêndios florestais na Rússia tornou-se ontem fonte de debate entre especialistas dos maiores centros de pesquisa meteorológica da Europa. Enquanto autoridades contam os mortos nos três países, os cientistas se dividem sobre as explicações dos fenômenos, que teriam relação com uma mesma corrente de ar em alta altitude.

Para alguns dos institutos de meteorologia mais importantes da Europa, como o British Met Office e o Météo France, os fenômenos estão interligados. A explicação para a intempérie no Paquistão seria o chamado "jet-stream", corrente de ar que circula em altas altitudes - entre 6 e 15 quilômetros da superfície -, a uma velocidade média de 100 km/h. Com a onda de calor, um "jet-stream" teria se formado a partir da Rússia. Sobre o Paquistão, a corrente teria se chocado com uma monção de intensidade anormal vinda do sul.

"É claro que há vínculo entre os fenômenos", assegurou ao Estado Etienne Kapikian, perito do Météo France. Entre cientistas que estudam mudanças climáticas, há cautela em relação à influência do aquecimento global nas tragédias. Hervé Le Treut, diretor do Instituto Pierre Simon Laplace, adverte que uma das evidências do aquecimento global é a maior frequência de eventos extremos. Já Pascal Scaniver, chefe do Serviço Previsão da consultoria Chaîne Météo, da França, vê fenômenos independentes nas chuvas da China e do Paquistão e na onda de calor na Rússia.

As monções - chuvas torrenciais típicas do Sudeste Asiático - teriam provocado a morte de 1,2 mil paquistaneses e desabrigado 1,8 milhão de habitantes. Em Zhouqu, no centro da China, mais de 1,1 mil corpos já foram retirados da lama que deslizou em razão da precipitação.

Vivendo o fenômeno inverso, a Rússia enfrenta há 15 dias aquelas que seriam suas maiores temperaturas em mil anos. Mais de 500 incêndios se espalharam pelo país, com um saldo de mortos desconhecido, embora o Kremlin reconheça apenas 52 vítimas. Em Moscou, a média de mortes aumentou de 380 para 700 durante a onda de calor.

A ONU tem o desafio de auxiliar as vítimas no Paquistão e apelou ontem às doações internacionais para obter US$ 459 milhões para auxiliar, durante três meses, os 14 milhões de afetados pela chuva no país.

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