REUTERS/Marko Djurica
REUTERS/Marko Djurica

Ligação de Trump com Rússia reativa tensão nos Bálcãs 25 anos após guerra

Presidente do Kosovo apoiou Hillary em campanha por temer influência de Putin e agora tenta reaquecer laços com a Casa Branca comandada pelo magnata, com o argumento de que paz na região só é mantida em função do suporte militar americano

Jamil Chade, Enviado Especial / Belgrado, Sérvia, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2017 | 05h00

BELGRADO, SÉRVIA - A iniciativa era simbólica. Pela primeira vez em 18 anos, uma linha de trem iria ligar Belgrado ao Kosovo. Mas o que era para ser um momento de aproximação se transformou em uma provocação. Ao inaugurar a linha, os sérvios pintaram os vagões comprados de fornecedores russos com a bandeira do país e escreveram, em 21 línguas, a frase: “o Kosovo é da Sérvia”.

A provocação ocorrida em janeiro não foi por acaso. A chegada de Donald Trump ao poder nos EUA reabriu as esperanças de nacionalistas sérvios de que a região volte a ser zona de influência de Moscou, numa barganha global entre Trump e Vladimir Putin. Ou, na melhor das hipóteses, em um vácuo de poder deixado pelos americanos diante de uma revisão de suas prioridades.

Dentro do trem, cartazes foram colocados ilustrando imagens de heróis sérvios e santos ortodoxos. Imediatamente, o Kosovo anunciou que não permitiria que os trens entrassem no seu território e ordenou que policiais fossem deslocados para a fronteira.

A resposta sérvia não deixou a desejar em relação aos momentos de maior tensão da década de 90. O presidente Tomislav Nikolic emitiu um comunicado alertando o que ocorreria se o trem fosse alvo de algum incidente: “Iremos à guerra, assim como meus filhos também irão”. A crise levou o chanceler russo e aliado de Belgrado, Serguei Lavrov, a alertar para “os riscos de um confronto”.

Abertamente, autoridades sérvias veem um momento de redefinição de posições, o que poderia significar o abandono dos EUA de seus aliados nos Bálcãs. Pela Sérvia, cartazes com a imagem de Trump foram espalhados, num sinal claro do apoio de Belgrado ao novo presidente americano. Sua imagem, hoje, só é superada pela de Putin, estampada em broches e camisetas em lojas de souvenirs de Belgrado.

A presença russa na capital sérvia é ostensiva. Pela cidade, a publicidade da Gazprom - estatal russa de petróleo - usa justamente as bandeiras dos dois países, que têm as mesmas cores, para mostrar os laços permanentes entre Moscou e Belgrado. Na principal catedral da cidade, St. Sava, as obras de renovação estão sendo pagas pelo Kremlin e só na primeira fase vão custar ¤ 4 milhões. A nova cúpula será financiada pela Gazprom.

Ao assinar a doação, o chefe das relações externas da Igreja Ortodoxa Russa, Hilarion de Volokolamsk, deixou claro que as relações de aliança entre os dois povos já foram pagas até mesmo “com o sangue de soldados russos e datam de centenas de anos”. “O povo russo sempre estará com seus irmãos sérvios”, disse.

Aos sérvios, o momento também é adequado para elevar o tom. No próximo mês, o país organiza eleições presidenciais. Uma vez mais, a carta nacionalista será colocada sobre a mesa na busca por votos. Depois de 25 anos, as feridas da guerra parecem cada vez mais expostas.

Mas o aprofundamento do nacionalismo não ocorre apenas do lado sérvio. No Kosovo, cresce o apoio ao movimento Vetevendosje, ou Autodeterminação, cujos membros acusam o governo de ceder aos sérvios e à influência da Rússia. Para demonstrar que esse não é o caso, as autoridades locais falam abertamente na criação de um Exército do Kosovo, algo a que a Sérvia se opõe.

O novo secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, reabriu o debate sobre o estabelecimento de forças armadas em Pristina. “Antes que possamos reduzir nossa presença militar no Kosovo, seria prudente que o governo local recebesse o mandato de conduzir a defesa do território”, indicou Mattis em sabatina no Congresso americano.

Pristina, ciente de que precisa manter a aliança com a Casa Branca, foi uma das primeiras a buscar contatos com Trump. Num rápido encontro dias depois da posse do americano, a embaixadora do Kosovo nos EUA, Vlora Citaku, usou um evento social para se aproximar do presidente e alertá-lo que o Kosovo é “o país mais pró-americano do mundo”.

O próprio presidente do Kosovo, Hashim Thaci, viajou até Washington para encontros com senadores republicanos para fazer um alerta: “Precisamos que os EUA tenham um papel de liderança em nossa região. A Europa está criando um vácuo que pode ser usado por outros”. Thaci é acusado pelos sérvios de ter feito parte de guerrilhas que cometeram crimes de guerra em 1999.

Durante a campanha nos EUA, o governo de Thaci saiu em apoio explícito a Hillary Clinton, justamente diante dos comentários pró-Putin de Trump. Agora, ele tenta refazer as relações e insiste que uma guerra nos Bálcãs apenas foi evitada por mais de uma década graças à vontade dos EUA.

A preocupação do Kosovo é que, em uma eventual barganha, Putin peça aos EUA para reduzir seu compromisso com a independência do Kosovo.

Ex-funcionário da CIA, Marc Johnson acredita que as provocações seriam uma forma de levar guerrilhas do Kosovo a ameaçar sérvios, o que então levaria Belgrado - e Moscou - a intervir para “proteger” essa população. “Esse é o modelo da Crimeia”, disse Thaci, numa referência à sombra que paira sobre a região. Depois de anexar parte da Ucrânia, Moscou poderia “ajudar” outros aliados pelo Leste Europeu.

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