‘Limpeza’ é 1º passo para Francisco implantar reformas

Pontífice ‘esvazia’ comitê de supervisão criado por antecessores e nomeia cardeais que não devem se opor a mudanças

Jamil Chade, correspondente em Genebra - O Estado de S. Paulo,

16 de janeiro de 2014 | 00h37

GENEBRA - Religiosos e vaticanistas consultados pelo Estado garantem que a decisão do papa Francisco de demitir quatro dos cinco membros do comitê que supervisiona o Banco do Vaticano tem como objetivo esvaziar as estruturas de poder montadas pelos antigos pontífices e acabar com qualquer tipo de resistência que possa ainda haver para começar a implementar as reformas que julga necessárias.

Em meados de 2013, o papa criou um grupo de trabalho que apresentará suas propostas sobre o futuro do Instituto de Obras de Religião (IOR). As decisões terão de ser antes aprovadas pelo comitê que era formado por d. Odilo Scherer e Tarcisio Bertone.

Para fontes dentro da Santa Sé, ao retirar esses cardeais ligados ao pontificado de Bento XVI, Francisco estaria "abrindo caminho" para que suas reformas sejam aprovadas sem resistência. Alguns dos cardeais nomeados no lugar do brasileiro são considerados como "pesos leves" dentro da Igreja e não teriam o poder de enfrentar uma proposta de reforma do papa.

"Dentro do IOR, agora, apenas três pessoas mandam: o presidente e dois assessores", afirmou um dos principais vaticanistas, John Allen, que sustenta a tese de que a "limpeza" foi um gesto para desfazer qualquer resistência a futuras reformas.

Mas o IOR não é o único lugar que está passando por reformas. A prioridade de Francisco é voltar a transformar a Igreja em um instrumento para evangelizar - e não em um centro de poder. Para isso, o pontífice já informou seus aliados que terá de reduzir ao máximo o poder de uma casta inteira de aristocratas: a Cúria. O próprio papa os chamou de "generais de exércitos derrotados".

Para conseguir reduzir o poder desse grupo, o papa decidiu "profissionalizar" vários serviços prestados no Vaticano. Assim, ofereceu duas opções: ou passam a trabalhar com a meta de ajudar os fiéis pelo mundo ou darão lugar para um profissional. Pegando muitos de surpresa, o papa não tardou para demitir o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano - considerado por muitos um "vice-papa" -, e deu um claro sinal de que o cargo pode ter seu papel reduzido.

Para o lugar de Bertone, escolheu Pietro Parolin, que em agosto ficou doente e não participou da posse do cargo - o que demonstraria que o posto não terá a mesma aura dos anos anteriores. De fato, Francisco já diluiu parte do poder do secretário de Estado.

A pedido do papa, um cardeal de sua confiança percorre os corredores do Vaticano e pergunta aos chefes locais quantos funcionários de seu departamento poderiam demitir.

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