Limpeza voluntária vira ato de resistência a tumultos em Londres

Apoio a comerciantes virou demonstração da população contra violência na Grã-Bretanha.

Daniel Gallas, BBC

09 de agosto de 2011 | 19h00

Dezenas de pessoas atenderam nesta terça-feira a uma convocação feita por meio de redes sociais para ajudar os comerciantes de Londres a limpar as ruas, após os tumultos dos últimos dias. Além disso, os voluntários também procuraram mostrar que não se deixariam intimidar com o vandalismo das últimas três noites.

Cerca de cem voluntários foram à região de Clapham Common, no sul de Londres, com vassouras, escovas e pás em punho para participar da limpeza voluntária, organizada por meio do Facebook e do Twitter.

"Eu cresci nesta cidade e vivi toda a minha vida. Eu vim aqui porque eu quero mostrar que isso não é Londres, a cidade que eu tanto amo", disse à BBC Brasil a professora Olívia Brown. Ela veio de Muswell Hill, a mais de 15 quilômetros de Clapham Common, para ajudar na limpeza das ruas.

Para a estudante Sami Wood, o ato público de ajuda aos comerciantes foi mais do que mera solidariedade, mas também uma demonstração de força e união da população de Londres.

"Isso mostra que eles podem jogar o que quiserem contra a nossa cidade, mas que nosso espírito não será quebrado. Isso ficou provado hoje com a quantidade de pessoas que surgiram", afirmou.

Motivos da violência

Em meio à destruição causada pelo quebra-quebra da noite anterior, a sensação em Clapham Common à tarde era de solidariedade e até mesmo de descontração.

Voluntários, policiais e lojistas faziam piadas entre si. Várias pessoas trouxeram seus filhos pequenos para ajudar na limpeza das lojas. Algumas lanchonetes distribuíam água gratuitamente para a multidão.

Mas apesar da tranquilidade aparente, todos sabiam que uma nova onda de violência poderia ressurgir assim que anoitecesse. Mesmo quem afirma não se intimidar com os tumultos reconhece que é preciso seguir o conselho da polícia e não andar pelas ruas à noite.

"Eu não quero estar nas ruas à noite, mas eu estarei de novo nas ruas durante o dia, ajudando no que for preciso", disse Olívia.

A onda de violência começou na noite de sábado, após uma passeata pacífica que pedia explicações da Polícia Metropolitana de Londres (também conhecida como Scotland Yard) a respeito da morte de um homem de 29 anos.

A passeata acabou em violência, com saques e depredações. Muitos dos envolvidos nos tumultos - a maioria deles jovens e desempregados - acusam a polícia de descriminação e abusos.

Em Clapham Common, os voluntários se recusam a ver a onda de violência - que continuou no domingo e na segunda-feira - como um ato por melhoras sociais. Os tumultos de Londres, segundo eles, são apenas uma desculpa para que criminosos saqueiem lojas e roubem artigos.

"Do que nós vimos, não há reivindicações concretas - do tipo 'queremos isso' ou 'queremos aquilo'", disse o professor James Palser. "Isso são só pessoas que querem uma televisão de graça e um par de tênis."

Insegurança econômica

Para os lojistas que tiveram seus negócios depredados, a insegurança também é econômica.

O dono de uma loja de calçados, Pradip Pabari, disse à BBC Brasil que após os estragos, existe um tenso debate entre os comerciantes e as companhias de seguro.

A maioria dos contratos de seguro não especifica o que deve ser feito em casos de saques e tumultos envolvendo multidões. Pabari afirma que, caso as seguradoras não cubram os danos, ele não terá recursos para reabrir sua loja e perderá tudo que construiu ao longo de anos.

Mesmo se houver cobertura, Pabari afirma que vai demorar para conseguir reabrir seu negócio. "Com a loja fechada, eu não tenho fonte de renda", diz.

O comerciante conta que viu seu negócio sendo depredado ao vivo na televisão, na segunda-feira, quando as câmeras mostravam um incêndio em uma grande loja de departamentos ao lado da sua.

Ao aparecer para trabalhar nesta terça, viu as vitrines quebradas, as estantes derrubadas e 30% do seu estoque de sapatos roubado.

"A primeira coisa que eles fizeram foi quebrar a câmera de circuito interno", afirmou.

Apesar da situação difícil, o lojista tentava mostrar bom-humor. Enquanto limpava a vitrine, Pabari fazia brincadeiras com os voluntários da limpeza e trabalhava o tempo todo com um sorriso nos lábios.

"Esses voluntários foram um milagre de Deus. Em menos de 10 minutos, eles limparam toda a minha loja", disse.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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