Mihael Reynolds/Pool/EFE/EPA
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O plano do Lincoln Project para preservar os EUA: tirar Trump do cargo deixando-o louco

Grupo formado por republicanos que não apoiam presidente vive ascensão e produz anúncios mais chocantes do que as peças produzidas pela campanha oficial de Joe Biden

Roxanne Roberts, The Washington Post

04 de agosto de 2020 | 03h00

Sua casa está incendiando. Você se importa com quem são os bombeiros? Esta é uma pergunta crucial da eleição de 2020. Donald Trump conseguiu uma coisa que nenhum outro presidente conseguiu: reunir republicanos e democratas, conservadores e progressistas, idosos e jovens em números sem precedentes para tentar derrotá-lo em novembro. Para os americanos que acham que o presidente é uma ameaça à democracia, os testes foram feitos e os resultados surgiram.

E que explica a ascensão espetacular do Lincoln Project, um grupo de republicanos que nunca foram pró-Trump e que se antipatizam com ele. Seus vídeos e tuítes virais ridicularizando sua liderança, sua inteligência e seu patriotismo – dirigidos tanto aos eleitores republicanos que estão vacilantes como ao próprio Trump – atraíram milhões de dólares de doadores de ambos os partidos. Mais de 10 mil pessoas participaram de um comício virtual no mês passado. Democratas vitalícios estão organizando eventos de arrecadação de fundos para o projeto.

O anúncio The Mourning in America ataca a péssima administração da pandemia do coronavírus pelo governo. #TrumpIsNotWell questiona sua condição física e mental. Bounty indaga porque razão Trump não quer confrontar Vladimir Putin sobre as informações de inteligência americanas de que a Rússia ofereceu recompensas para o assassinato de soldados americanos no Afeganistão.

Esses anúncios são hábeis, mordazes e mais chocantes do que qualquer outra coisa que a campanha oficial de Joe Biden produziu até agora. O spot mais recente, Wake Up, é uma sátira cômica sobre a vítima de um coma ouvindo falar dos últimos três anos de Trump. “Republicanos, vocês precisam acordar. Este sujeito estava em coma. Qual é a sua desculpa?”.

“Donald Trump está totalmente em desacordo com todas as instituições nos EUA e completamente em discordância com tudo o que o Partido Republicano pretensamente sempre defendeu: o estado de direito, a fidelidade constitucional, as instituições, as normas, as tradições, tudo isso jogado no lixo”, afirmou Rick Wilson, cofundador do grupo. “Portanto, você tem de escolher entre Trump ou seu país. Nós escolhemos o país, mesmo se de imediato parece não se ajustar às nossas prioridades políticas ou ideológicas”.

Escolha seu lema: a política produz aliados estranhos. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Tempos desesperados exigem medidas desesperadas. “Vou ser honesto com você: meu horizonte de tempo é a eleição”, disse Charlie Sykes, comentarista político conservador que não faz parte do Lincoln Project, mas quer que Trump não se reeleja. “Sinto que a casa está pegando fogo. Quero apagar o fogo, vou me preocupar sobre a sua renovação depois”.

Três dos fundadores do Lincoln Project – Wilson, Steve Schmidt e George Conway – se sentaram esta semana para conversar sobre os seus motivos e sua metodologia. Wilson e Schmidt são profissionais especializados trabalhando para candidatos republicanos (como George W. Bush, John McCain e muitos outros); Conway, advogado cuja esposa é a assessora da presidência Kellyanne Conway, tem uma longa carreira representando clientes republicanos.

Schmidt é agitador, furioso e efusivo. Wilson é astuto e perspicaz. E Conway é um feroz protetor da Constituição, que, segundo ele, Trump tem violado repetidamente.

Os três não se conheciam bem antes de dezembro quando fundaram o grupo – que tem esse nome em homenagem ao presidente que “liderou os Estados Unidos no período mais sangrento, mais desagregador e mais decisivo da nossa história”, mas se uniram na sua desilusão com Trump. Conway e Wilson ficaram profundamente influenciados pelo livro Trump on the Couch, do psiquiatra Justin Frank.

“Trump é um narcisista e só reage às ameaças à sua psique sensível”, explicou Conway. “Ele é um ser humano muito sensível, frágil, que não consegue engolir críticas”. O outro fator, acrescentou, é que ele “não consegue pensar à frente. Ele apenas reage às coisas. E o que fazemos é aproveitar esses defeitos psicológicos”.

Em termos práticos, os anúncios colocados pelo Lincoln Project são delineados especificamente para provocar o presidente. Quando Trump reage a um desses anúncios ele fala coisas que não deveria falar. Explica porque desceu com dificuldade a rampa na Academia Militar, ou usou uma das mãos para ajudar a outra ao tentar levar o copo d’água à boca.

O grupo empreende sua tarefa com uma precisão militar, com algumas dezenas de funcionários criando novos vídeos da noite para o dia. “Você não pode perder tempo”, disse Wilson. “É o conceito de mover mais rápido do que a capacidade do seu inimigo decidir agir numa batalha”.

Você poderia chamar isto de troll, e é: O Lincoln Project compra tempo de anúncios em Washington e Bedminster para um único público. “Ele é uma criatura que existe somente na TV, é o Chauncey Gardiner do nosso tempo”, disse Wilson, evocando o filme Being There. “O fato de conseguirmos usar sua enfermidade mental e seu vício da televisão para congelá-lo e manipulá-lo atende a um objetivo maior da campanha, que é colocá-lo fora do contexto, desorganizá-lo e desorientá-lo”.

Tudo isto vai ajudar Biden, cuja candidatura eles endossaram em um artigo no Washington Post em abril. Sua habilidade excepcional é conversar com os conservadores de uma maneira que os democratas não conseguem, com técnicas que eles aperfeiçoaram durante muitas campanhas republicanas. E visam também aos republicanos “mais brandos” que podem ser convencidos, como aqueles que votaram em Obama em 2012 e em Trump em 2016.

“A única coisa que não volta na política é o tempo”, disse Sykes. “Cada dia que passa em que Trump se desorienta, ou se distrai, é uma vitória. Ele não consegue resolver a questão, não pode voltar atrás. O que eles descobriram é que um único vídeo pode tirar o presidente dos Estados Unidos dos trilhos por um dia ou mais e a gente vê isto acontecer”.

Mas não se engane achando que o Lincoln Project foi criado para reparar pecados do passado. Sim, há muitos republicanos que têm se perguntado se seus esforços nas décadas passadas tornaram uma presidência Trump possível. Qual a participação deles nisto? O que eles não viram, ignoraram ou toleraram? O consultor republicano Stuart Stevens, autor do novo livro It Was All a Lie: How the Republican Party became Donald Trump, diz que o presidente é “um produto natural das sementes de raça, autoengano e raiva que se tornaram a essência do Partido Republicano” nos últimos 50 anos. “Trump não é uma aberração do Partido Republicano, ele é o Partido na sua forma mais pura”.

Mas Schmidt, que se mostra indignado com Trump, não se arrepende do trabalho realizado em sua vida. Sim, ele insistiu para McCain, quando candidato, escolher Sarah Palin para sua vice, uma decisão que enfim foi motivada pela política. Mas não, não está renunciando ao Partido Republicano como ele conheceu.

“Acho que é um bom sinal ser um idiota um dia na vida, acreditando que um partido é virtuoso e outro é demoníaco”, disse. E rejeita aqueles que dizem que ele deveria ter vergonha do seu passado. “A necessidade de expiar seus atos é algo farisaico, que empobrece minha capacidade de descrever isto na linguagem inglesa. E diria que é parte do problema e não da solução”.

Uma pergunta é se os anúncios veiculados pelo Lincoln Project estão alcançando apenas democratas e outros que nunca apoiaram Trump ou se terão a capacidade de influenciar eleitores que se identificam como republicanos.

Sarah Longwell, fundadora do grupo Republican Voters Against Trump, tem posição diferente. Seu grupo coletou centenas de depoimentos de eleitores de Trump em 2016 que pretendem votar agora em Joe Biden e vem usando os US$ 13 milhões que arrecadou – uma gota d’água dos gastos de campanha –, para exibir esses depoimentos em Estados que são decisivos numa eleição.

Sua pesquisa mostra que o que as pessoas consideram persuasivo são vozes reais, não anúncios produzidos. Ela está especificamente visando aos apoiadores de Trump, particularmente às mulheres suburbanas, com depoimentos de pessoas no mesmo Estado.

E o que ela tem ouvido? Coisas como: “Votei em Trump em 2016, e chorei e senti que preciso me limpar”, ou então: “eu o tenho observado desde que votei nele e simplesmente não suporto como ele é desagregador”.

Longwell, que sempre foi eleitora do Partido Republicano, admite que acreditou que seu partido resistiria aos piores instintos de Trump. E que estava errada. “Surgiu o mito de que a base dele era tão forte e que o adorava. Eu sabia que isto não era verdade e que havia muitas pessoas por aí que poderiam ser convencidas se o Democrata não fosse grosseiro com elas. Sabia que Bernie Sanders nunca chegaria a essas pessoas, mas Joe Biden sempre apareceu uma figura que muita gente poderia ser convencida a votar nele”.

Esse enfoque não choca com o do Lincoln Project, disse Longwell. No fim, todos estão trabalhando com o mesmo objetivo. E esse objetivo, disse o comentarista conservador Rick Tyler, significa que alianças com oponentes ideológicos são importantes, no curto prazo, especialmente no caso de eleitores que se sentem ignorados pelo Partido Republicano atual. “Não existe nenhuma filosofia. Nenhum benefício. Não há base. Tudo tem a ver com Trump e sua popularidade”, disse ele. O valor do Lincoln Project é que ele persiste lembrando os eleitores de todas as crenças porque Trump não deve ser reeleito.

“No momento a necessidade mais urgente é liquidar Donald Trump”, disse Tyler. “Agora podemos pensar em Joe Biden, ou Nancy Pelosi também. Acho que são um perigo, mas estão mais distantes. Você não tem de se preocupar com eles. Mas Trump é o mais perigoso”.

Segundo a Casa Branca, “o chamado Lincoln Project é um absoluto tapa na cara do legado do nosso 16º presidente e os mais de 62 milhões de homens e mulheres esquecidos que votaram em Trump", afirmou o porta-voz do governo Judd Deere. “Esta organização partidária formada por elitistas que defendem o Pântano e estão ameaçados por este presidente e sua corajosa liderança para colocar a América em primeiro lugar”.

O presidente, naturalmente, deixou claro que NÃO ESTÁ FELIZ com o grupo. No Twitter, ele disse que “o chamado Lincoln Project é uma desgraça para uma pessoa honesta. Não sei o que Kellyane fez para seu marido enlouquecido, mas deve ter sido algo muito ruim”. E prosseguiu, rechaçando os fundadores, como “todos Perdedores”.

A história deles de trabalho com candidatos republicanos é execrável para alguns progressistas. A base de Trump também é rejeitada pelo que é visto como uma traição ao presidente. O quadrinho Late Show de Colbert, Tooning Out the News distorceu o currículo de Wilson e as finanças do grupo.

A campanha de Trump e conservadores têm atacado agressivamente o Lincoln Project como uma operação lucrativa para os fundadores. A presidente do Comitê Nacional Republicano, Ronna McDaniel, criticou o grupo afirmando que “está lucrando com os ataques ao presidente Trump”. No último trimestre, o grupo arrecadou quase US$ 17 milhões que foram direcionados para aumentar as compras de mídia. Os fundadores enriqueceram? Não, eles dizem, pelo menos não mais do que outras operações de campanha.

“Pelo que sei, não faço parte disto, eles não estão fazendo nada diferente de qualquer outro comitê de ação política”, afirmou Sykes. “Mas é fascinante a energia que vem sendo gasta para desacreditá-los, o que, mais uma vez, mostra o quão eficientes eles são. Eles tocaram num ponto incrivelmente sensível”.

“Você não pode tirar o pé do acelerador, mas ele vai perder e vai sofrer uma grande derrota”, disse Conway. “A razão pela qual estou confiante não tem a ver com as pesquisas, mas com sua natureza essencial, sua índole autodestrutiva. Trump não sabe como enfrentar a atual situação. Não pode continuar mentindo mais. E se mantivermos a pressão, continuarmos a fazer o que estamos fazendo, ele vai se afundar cada vez mais". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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