Linguagem conciliadora, mas táticas agressivas

CENÁRIO: William Neuman / NYT

O Estado de S.Paulo

22 de março de 2014 | 02h03

Atendendo às ordens do presidente Nicolás Maduro, a polícia de choque e soldados impediram semana passada uma marcha de milhares de estudantes e investiram contra eles usando spray de pimenta, canhões d'água e gás lacrimogêneo. Algumas horas depois, Maduro convidou os líderes estudantis para conversações de paz, prometendo ouvir e conversar "com respeito e benevolência". Após um mês de protestos e distúrbios sangrentos, Maduro tenta mitigar o maior desafio político a sua presidência de duas maneiras: projetando uma imagem de abertura e inclusão e adotando medidas repressivas.

Maduro tem insistido no diálogo, realizando até uma série de reuniões que são televisionadas, chamadas por ele de conferências de paz. No entanto, com um pequeno grupo de opositores participando desses encontros e as forças de segurança atacando manifestantes em todo o país, seus críticos afirmam que a aparência mais afável do presidente, provavelmente, pretende amenizar as críticas internacionais, que partem mais vigorosamente dos EUA, e o objetivo das táticas policiais é provocar os manifestantes.

Dois confrontos resumem essa tática. No dia 12, depois de policiais e soldados impedirem a passagem de milhares de estudantes no centro de Caracas, manifestantes enfurecidos começaram a atirar pedras. A polícia reagiu com gás lacrimogêneo. "Queremos realizar uma marcha pacífica, mas o governo quer que sejamos vistos como bandidos", disse Antonio José Pérez, de 39 anos, gerente de uma loja de artigos elétricos, que participou da manifestação. Como muitos outros, ele assistiu ao confronto, retirando-se quando o cheiro de gás lacrimogêneo passou a ser insuportável. Ele não condenou a reação violenta dos manifestantes. "O que podemos fazer? Eles têm armas. Nós só temos pedras e a bandeira."

A onda de protestos que sacode a Venezuela teve origem em fevereiro, quando estudantes deram início a manifestações contra o alto índice de crimes violentos no país. Os protestos logo se ampliaram para incluir as frustrações com a economia combalida, a cólera crescente com relação ao monopólio do poder pelo partido do governo e, agora, contra as táticas agressivas usadas pela polícia, por ordem de Maduro, contra os manifestantes.

Em outro episódio, o governo encenou o que chamou de "conferência de paz", concentrando seus partidários numa área que poderia levá-los a entrar em confronto com opositores. A marcha de protesto começou sem incidentes num enclave da oposição e, em seguida, seguiu para o campus da Universidade Central da Venezuela, uma das principais do país, tombada pela Unesco, renomada por sua arquitetura modernista e obras de arte. Quando os manifestantes tentaram deixar o campus, seu caminho foi bloqueado por uma falange de policiais e soldados da Guarda Nacional. Novo confronto.

Maduro, no fim do dia, participou de um programa de TV descrito como uma "conferência de paz" com estudantes pró-governo. "Se esse grupo, infiltrado por grupos fascistas violentos, entrasse em Caracas, agora estaríamos lamentando. Não sei qual seria a extensão dos danos materiais e o número de vidas perdidas", afirmou. Ao mesmo tempo, ampliou seu convite aos líderes dos protestos estudantis. "Ouvirei tudo o que eles têm a me dizer e depois eles terão de me ouvir", afirmou o presidente. "Tudo o que eu disser, o farei com respeito e benevolência." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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