REUTERS/Jonathan Ernst
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Linguagem corporal: um encontro de 'machos alfa'

Cúpula histórica com Trump marcou a primeira interação do norte-coreano Kim Jong-un com a comunidade internacional; chefes tentaram projetar dominância, mas não deixaram de exibir nervosismo

O Estado de S.Paulo

12 Junho 2018 | 11h41

CINGAPURA - Nos primeiros momentos da cúpula histórica entre EUA e Coreia do Norte nesta terça-feira, 12, o presidente americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, buscaram projetar figuras de comando, mas também demonstraram certa ansiedade.

Especialistas em linguagem corporal explicaram que, nos cerca de 13 segundos do primeiro aperto de mãos entre os dois, Trump estendeu a mão primeiro, projetando seu domínio habitual e dando tapinhas no ombro do norte-coreano. Kim não ficou para trás e segurou firme a mão do americano, olhando diretamente em seus olhos o tempo todo, antes de se virar para as câmeras.

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"Não foi realmente um aperto de mão", disse o especialista em linguagem corporal Allan Pease, autor de "O Guia Definitivo da Linguagem Corporal". "Foi para cima e para baixo, uma briga, cada um puxando o outro para mais perto. Nenhum deles deixou que o outro tivesse uma pegada dominante."

Antes do início da cúpula, Trump chegou a afirmar que seria capaz de descobrir ainda no primeiro minuto se Kim falava sério sobre buscar a paz. A projeção de autoridade chega facilmente a Trump. Como líder global, empresário e ex-personalidade televisiva, ele é versado no uso eficaz de linguagem corporal. Além disso, tem a vantagem de ser mais alto que o norte-coreano.

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Enquanto os dois caminhavam até a biblioteca para a primeira reunião a sós, o presidente buscou aliviar a tensão conversando com Kim e deixando que ele andasse um pouco à frente. No entanto, o americano manteve o controle sobre o bate-papo, dando tapinhas e guiando o líder com as mãos.

Kim, numa tentativa de afirmar seu controle, também deu um tapinha em Trump. Ele manteve os olhos no chão, ouvindo, enquanto o americano falava, mas também fazendo contato visual diversas vezes durante a conversa.

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"Donald Trump estava falando em termos conciliatórios, quase submisso, mas sua linguagem corporal estava dizendo 'Eu estou no comando aqui'", explicou Pease. "Se você não soubesse quem eram essas pessoas, diria que o grandalhão era o pai e o garotinho era o filho." Kim tem quase metade da idade de Trump.

Desejo de dominar

Karen Leon, diretora-gerente da Influence Solutions, disse que Trump não demonstrou em Cingapura nenhuma das hostilidades que praticou durante o encontro do G-7, no Canadá, quando atacou aliados como a União Europeia e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

Uma fotografia da reunião do G-7 demonstrou a natureza do encontro. A imagem mostra Trump sentado, de braços cruzados, enquanto ouve a chanceler alemã, Angela Merkel. Ainda assim, o americano exibia seu desejo de dominação.

Já sobre a cúpula em Cingapura, Karen explicou que os líderes queriam mostrar domínio, e portanto deram apertos de mão esmagadores. "Sempre que eles estão apertando as mãos, você pode ver o branco das pontas dos dedos", ressaltou. "Esses dois caras são machos alfa."

No entanto, a especialista diz que ambos tiveram dificuldades para esconder o nervosismo quando estavam sentados. Trump exibia um sorriso torto, mexendo a mãos, enquanto Kim olhava para o chão, inclinado. "Trump é um jogador e está apostando em ser capaz de controlar a Coreia do Norte como um pai controla uma criança travessa." Ela diz que o comportamento contrasta com o de Kim, que tinha menos a perder. Só o encontro com o americano já era uma grande vitória para o norte-coreano.

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Esta foi a primeira interação de Kim com a comunidade internacional, e o momento demonstrou como ele ficou admirado quando se virou para os milhares de cliques dos fotógrafos no pórtico do hotel Capella. "Kim parecia uma criança em um parque temático: não estava intimidando, mas estava animado e um pouco nervoso", acrescentou Pease. / REUTERS

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