Federico Rios/The New York Times
Federico Rios/The New York Times

Linha direta na Colômbia ajuda homens a combater o próprio machismo

Ao estimular os homens a avaliar como o papel tradicional masculino prejudica suas vidas e daqueles a seu redor, programa busca inspirar profunda mudança cultural

Julie Turkewitz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 10h00

BOGOTÁ — Os telefonemas costumam ser urgentes e suplicantes. "Eu bati na minha esposa. Eu perdi minha paciência. Estou com ciúme e não sei o que fazer."

As pessoas que ligam são jovens e velhas, ricas e pobres. Mas todas têm uma coisa em comum: são homens.

A nova linha direta para a qual estão ligando visa combater a violência contra as mulheres. Mas, em vez de se concentrar nelas, coloca os homens no centro da conversa, em um esforço para ensiná-los a compreender suas emoções e controlar suas ações.

A mudança é simples, mas profunda. A ideia da “Calm Line” (Linha para Acalmar), como é chamada, não é apenas para prevenir a violência, mas para abordar o que muitos especialistas dizem ser uma de suas raízes: o machismo, a crença frequentemente compartilhada de que os homens devem ser dominantes.

Ao estimular os homens a se concentrar em como essa atitude muitas vezes não pensada está prejudicando suas vidas e daqueles a seu redor, o programa busca inspirar uma profunda mudança cultural, de acordo com Nicolás Montero, que dirige o escritório de cultura de Bogotá, que introduziu a linha no início de setembro, depois de um piloto que começou no ano passado.

“Imagine uma manchete nesta sociedade em 20 anos: o machismo foi erradicado da geografia nacional”, falou Montero. 

A criação da linha surge em um momento em que as mulheres da América Latina exigem cada vez mais que a sociedade se desfaça das normas que as têm limitado em casa ou no local de trabalho, mesmo enquanto avançam no ensino superior, nos negócios e na política.

Nos últimos anos, mulheres do México à Argentina saíram às ruas em protestos em massa para participar de movimentos como o #MeToo, pressionar pela legalização do aborto e pedir o fim da violência que sofreram.

Um hino feminista, "Um estuprador em seu caminho", escrito por um coletivo feminista chileno, colocou a responsabilidade pela violência diretamente sobre os ombros dos homens, ressoando com mulheres que cantaram o hino juntas em espaços públicos em toda a região e depois no mundo. “A culpa não foi minha, nem de onde eu estava, nem de como me vesti”, gritavam dezenas de milhares de mulheres em praças e ruas públicas a partir de 2019. “O estuprador é você.”

É nesse contexto que um número crescente de organizações, ativistas e formuladores de políticas na América Latina pressiona por programas que tornem os homens uma parte central da conversa, mesmo em meio ao ceticismo de que os homens vão participar.

Na Colômbia, onde uma mulher é agredida sexualmente a cada 34 minutos, de acordo com dados do governo, estudantes universitários começaram a realizar workshops sobre “micromachismos” ou microagressões machistas, enquanto organizações sem fins lucrativos no México, Costa Rica e Brasil oferecem terapia ou cursos centrados na masculinidade saudável. Alguns governos, além de apoiar a educação para abusadores, agora endossam aulas de paternidade.

E em toda a região, dezenas de coletivos masculinos com nomes como "Homens no Trabalho" agora se reúnem regularmente para discutir seu papel no patriarcado e as diversas maneiras de ser um homem.

Mauro A. Vargas Urías, fundador e diretor da Gendes, uma organização mexicana que examina a masculinidade, acredita que o machismo é um sistema “opressor” e “hegemônico”, mas que pode ser mudado. “Por ser um sistema que aprendemos, podemos desaprendê-lo para reaprender”, disse.

A linha para acalmar foi iniciada pelo governo de Claudia López, que no ano passado se tornou a primeira mulher e a primeira prefeita abertamente gay de Bogotá, uma capital relativamente liberal em uma nação católica amplamente conservadora. López fez do enfrentamento do machismo parte do plano de seu governo, e a linha direta, que custa à cidade de 8 milhões de habitantes cerca de US$ 300 mil por ano, é apenas uma parte disso.

Neste mês, Bogotá iniciará uma escola para homens, conhecida como “Men in Care” (Homens Sob Cuidados), destinada a ensinar maridos e pais a cuidar de sua casa, de seus filhos e de suas parceiras.

A questão para os criadores desses programas é se os homens vão aparecer. Muitos colombianos dizem reconhecer a existência do machismo, mas muitos não o veem em si mesmos.

O taxista Pedro Torres, de 58 anos, descreveu a linha como uma “boa ideia”, mas disse não ter certeza se era um serviço realmente necessário, além de duvidar que os homens realmente ligariam por terem vergonha. “O machismo está se extinguindo hoje devido à libertação das mulheres”, falou.

Os homens estão ligando para a linha direta, porém, a uma taxa de 12 ligações por dia. Mais de dez psicólogos da linha sentam-se lado a lado em computadores em um pequeno escritório com vista para a cidade, fones de ouvido emoldurando seus rostos. Alguns acabaram de sair da escola, todos fluentes em um tipo de terapia que incorpora e desafia suposições arraigadas sobre gênero e poder.

“Eu acreditava, e outros acreditaram, que os homens que cometem violência não nos ligariam para pedir ajuda. Mas algo está acontecendo, e talvez seja que aqueles velhos modelos masculinos não funcionem mais”, afirmou o psicólogo Daniel Galeano, que trabalha no escritório.

Uma ideia essencial para o trabalho dos psicólogos é a de que o machismo fere não só as mulheres, mas também os homens, ao confiná-los a um conjunto estreito de emoções e papéis, como os que dizem que homens devem ser fortes, não podem falhar, não podem chorar etc. De acordo com os profissionais, isso os deixa propensos ao isolamento, violência e conflito social.

Além disso, defensores da linha argumentam que punir abusadores por meio do sistema penal quando eles cometem crimes não resolve a causa do problema, como fazem a prevenção e a educação.

A linha está sendo anunciado na televisão, rádio e mídia social e por meio de uma minissérie de TV associada, “Calm”, que apresenta um elenco de quatro amigos do sexo masculino que se apoiam enquanto lutam contra a raiva e problemas de controle.

“Escute, Carlos, o trabalho doméstico é um trabalho normal, como qualquer trabalho”, diz um personagem do Episódio 2 a um homem cuja esposa lhe pediu para ajudar mais em casa.

Carlos, parado na pia de avental e parecendo estar à beira de um colapso nervoso, encara o amigo. "Mas você faria isso?". O amigo responde: "Claro que sim!".

As pessoas que ligam para o Calm Line são, em sua maioria, cisgêneros, pessoa cuja identidade de gênero é a mesma do sexo biológico, mas às vezes transgêneros, e frequentemente ligam porque estão lutando contra o ciúme. Às vezes, eles têm problemas de custódia ou dizem que estão perto do ponto de suicídio. Medo, vergonha e confusão permeiam muitas das conversas.

“Acho que a linha me curou muito”, disse Alex Rodríguez, 31, um homem transexual que a usou este ano.

Ele se lembra de ter dito a sua psicóloga, Diana: “Não quero ser um namorado ou homem ciumento, não quero ser controlador, não quero ser possessivo. O que eu faço?".

Os psicólogos da Calm Line também convidam quem liga para se inscrever em workshops individuais gratuitos para ajudá-los a resolver problemas maiores.

Em uma manhã recente, Diana Tiria, 26, uma das psicólogas da Calm Line, deu início a um workshop com um jovem que luta contra a depressão por desilusão amorosa.

“Então, esta insegurança, que está associada e que aparece quando você se compromete”, ela disse a ele a certa altura, refletindo sobre o que ele acabara de dizer. “Você acha que isso tem a ver com o conceito de poder?”

Então, no final da sessão, ela sorriu para o computador e acenou com a palma da mão para a câmera. "Toca aqui!" ela disse. “Chegamos ao ponto.”

“Isso já é uma mudança enorme”, ela continuou. "Você reconheceu o consentimento e a voz dela."

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