Linhas duras, vermelhas e verdes

O mundo vem se tornando tão interdependente que um líder fraco em um país tem hoje profundo impacto sobre muitos outros; o déficit de liderança global não pode continuar

É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2012 | 03h04

Na semana passada, a líder da democracia de Mianmar, Aung San Suu Kyi, chegou a Washington e foi agraciada com a Medalha de Ouro do Congresso, numa cerimônia no Capitólio. Eu não estava presente, mas li a transcrição da cerimônia e fiquei profundamente impressionado com o tributo prestado a ela pelo senador John McCain, que agradeceu "The Lady" por "ter me ensinado, na minha idade, uma ou duas coisas sobre coragem". Encerrou sua fala repetindo uma famosa frase de Aung San Suu Kyi: "não é o poder que corrompe, mas o medo. O temor de perder o poder corrompe aqueles que o exercem, e o medo do açoite do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele".

Adoro essa frase: não é o poder, mas o temor de perder o poder que corrompe. Isso é profundamente verdadeiro e relevante hoje, quando tão poucos líderes ousam assumir um risco nas urnas e dizer às pessoas a verdade sobre alguma coisa difícil ou controversa. Aung San Suu Kyi dedicou 20 anos da sua vida ao seu país. Muitos líderes hoje não cederiam um minuto.

Você observa isso por toda parte: os muçulmanos investem enfurecidos contra a embaixada americana no Cairo por um desprezível e imaturo vídeo antimuçulmano no YouTube - e o novo presidente egípcio, Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, de início recusa-se a condenar os agitadores ou mesmo proteger adequadamente a missão diplomática americana. Somente um telefonema do presidente Barack Obama, que sem dúvida insinuou que o Egito não receberia um centavo de ajuda externa se Morsi não tomasse alguma medida, levou o líder egípcio a condenar o ataque. Autoridades da Irmandade Muçulmana "explicaram" que Morsi estava indeciso entre as exigências da diplomacia e o não desejo de alienar sua base ou ser suplantado pelos muçulmanos salafistas ainda mais radicais. Lamento, liderar é decidir. Não é um bom sinal.

Mas você sabe o que eles dizem sobre pessoas que agem com hipocrisia... Em julho, a deputada Michele Bachmann iniciou uma campanha equivocada contra muçulmanos no governo dos Estados Unidos, incluindo uma assessora importante da secretária de Estado Hillary Clinton. Ela escreveu para os líderes das agências de segurança nacional do país questionando se a Irmandade Muçulmana havia se infiltrado no governo federal. Tanto John McCain como o presidente da Câmara, John Boehner, censuraram Bachmann por sua caça às bruxas com inspiração política, mas não Eric Cantor, o líder da maioria na Câmara. O ambicioso Cantor viu aí uma oportunidade para obter ganhos políticos na base republicana, contra seu rival John Boehner, e disse a Charlie Rose da CBS News que era preciso compreender Michele Bachmann: "Acho que sua preocupação foi com a segurança do país". Sim, certo, Cantor, e suponho que o senador Joe MacCarthy também estava preocupado com isso.

O premiê israelense Bibi Netanyahu vem demandando a altos brados que os EUA publicamente tracem uma "linha vermelha" (limite) com relação ao programa nuclear iraniano, estabelecendo quando os Estados Unidos lançariam um ataque contra Teerã. Bibi é Winston Churchill quando se trata de exigir que os Estados Unidos tracem limites, mas é apenas chefe de um partido local quando os EUA pedem que ele trace uma "linha verde"demarcando o território e estabelecendo até onde vão os assentamentos judeus na Cisjordânia e um Estado palestino terá início. "Oh! não. Eu não posso fazer isso", afirma o premiê israelense. "Perderia minha coalizão". Assim os EUA correm o risco de uma guerra com o Irã, mas Bibi não quer se arriscar a propor um acordo com os palestinos que ofereceria um pouco mais de legitimidade e simpatia globais para Israel e os EUA, na eventualidade de uma guerra com o Irã. Muito obrigado.

Obama cometeu um erro ao tentar negociar um "grande acordo" com Boehner sobre impostos e gastos no ano passado. Mas sempre tive uma dúvida. Boehner disse ter ido atrás de Obama e pedido US$ 400 bilhões mais em impostos para conseguir convencer mais democratas.

Por que ele simplesmente não saiu, chamou Obama e disse: "minha proposta é essa - esqueça os US$ 400 bilhões - ou você aceita o acordo original, senão esqueça". Ele não fez isso porque teve medo que Obama aceitasse a oferta. E Boehner sabia que não conseguiria ganhar a base do seu Tea Party ou perderia sua liderança tentando. Então não tentou.

Quanto a Obama, ele esteve no seu melhor papel quando ousou liderar sem temer os políticos: eliminando Osama bin Laden, assegurando uma assistência médica sem uma opção pública, levando adiante seu programa para o ensino e socorrendo os bancos em vez colocar todos os banqueiros na prisão, o que mereciam. E o seu desempenho é o pior quando ele coloca a política em primeiro lugar: repelindo a comissão Simpson-Bowles, redobrando sua aposta no Afeganistão por temer ser visto como um frouxo e tirando o problema da "mudança climática" dos seus discursos.

Algo me diz que esse déficit de liderança global não pode durar. Em primeiro lugar, o mundo vem se tornando tão interdependente que uma liderança fraca em um país tem hoje um profundo impacto sobre muitos outros. Pense na crise do euro, na disputa de Israel com Irã ou na poluição na China. E em segundo, não acredito que as duas forças disciplinadoras mais poderosas do planeta - o mercado e a mãe natureza - continuarão inativas por mais uma década, permitindo que continuemos criando enormes déficits financeiros e excedentes de carbono sem nos punirem um dia, com golpes que exigirão uma liderança hercúlea para enfrentá-los.

Portando, vamos reverenciar "The Lady" de Mianmar, não apenas com uma medalha, mas de uma maneira realmente importante - imitando-a. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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