Linhas que não são vermelhas

Apesar da instabilidade, é difícil que as fronteiras do Crescente Fértil sejam apagadas

Fouadi Ajami*,

11 de maio de 2013 | 02h03

Raramente é uma boa ideia traçar mapas às pressas. Foi o que os cartógrafos do período colonial fizeram no caso do mundo árabe depois da 1.ª Guerra - e as fronteiras traçadas se sobrepuseram aos antigos vínculos religiosos e tribais que existiam muito antes dos novos Estados.

Hoje, a insensatez daquelas fronteiras tornou-se clara, uma vez que a guerra na Síria ameaça não só a unidade territorial do país, mas também a dos seus vizinhos. Foi otimismo imaginar um dia que os combates entre o governo alauita e os rebeldes sob liderança sunita ficariam circunscritos às fronteiras do país. A Síria é, ao mesmo tempo, o pivô e o espelho do Crescente Fértil e suas divisões étnicas e sectárias reproduzem-se nos Estados árabes vizinhos. O presidente Barack Obama, curiosamente passivo, deveria se preocupar menos com as linhas vermelhas que ele próprio criou e mais em desfazer as linhas traçadas há décadas nas regiões árabes.

No mapa, Trípoli, no Mar Mediterrâneo, situa-se dentro das fronteiras do Líbano. Mas Trípoli, de maioria sunita e uma minoria alauita, sempre foi mantida dentro da órbita da cidade síria de Homs. De modo que não é um mistério o fato de um conflito tão mortífero entre sunitas e alauitas tornar a região ingovernável. Para jihadistas, a disputa na Síria é também deles, é uma oportunidade para expulsar os alauitas e restaurar a primazia sunita.

Basta olhar para o Iraque, na fronteira oriental da Síria, que é a entidade artificial perfeita da região. Hoje, o governo em Bagdá, liderado por xiitas, é um aliado da ditadura alauita em Damasco. A guerra empreendida pelos americanos mudou as coisas no Iraque; a minoria sunita perdeu espaço para os xiitas e se rebelou diante da mudança de situação. A rebelião síria, um levante sunita contra uma minoria alauita, tornou-se uma dádiva para os sunitas iraquianos, que têm queixas profundas contra o governo do premiê Nouri al-Maliki.

As leis antiterrorismo e as normas para esvaziar o Partido Baath deixaram os sunitas fora do controle. O conflito sírio colocou mais lenha na fogueira. Se os sunitas precisavam de uma prova de que a coalizão xiita na região (compreendendo o Irã, o Estado iraquiano, o regime alauita em Damasco e o Hezbollah no Líbano) está decidida firmemente a roubar o seu lugar histórico no Iraque, o apoio do governo a Bashar Assad forneceu essa prova. Era apenas questão de tempo para que os conflitos milenares renascessem com a guerra civil síria, que adquiriu uma conotação religiosa passional.

Mesmo com toda a instabilidade não acredito que as fronteiras do Crescente Fértil sejam apagadas. O Iraque Ocidental não se separará e se juntará com a Síria, tampouco Trípoli vai se inserir na Síria. Mas uma Síria governada por uma maioria sunita reescreveria as regras da política regional. O Líbano, também, teria uma chance de recuperar a normalidade. O poder do Hezbollah nesse país deriva em grande parte do poder da ditadura síria.

Um grande Oriente Médio está agora presenciando o declínio do poder e responsabilidade americanos. Os EUA estão cansados de guerras no Oriente Médio. Os rebeldes sírios, que estavam certos de que a cavalaria americana surgiria, ficaram decepcionados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO * É pesquisador sênior da Hoover Institution e escritor

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