Linhas vermelhas são importantes

Os EUA precisam impor um limite moral se quiserem manter sua credibilidade em várias partes do mundo

ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h14

A Europa sabe a importância das "linhas vermelhas" americanas. Berlim Ocidental, durante mais de quatro décadas, ficou presa dentro da zona de ocupação soviética numa extensão de 160 quilômetros, mas sobreviveu em razão da credibilidade do compromisso mantido pelos EUA, o que ficou demonstrado pelo socorro aéreo em resposta ao bloqueio soviético de 1948.

A Europa destroçada se recompôs, livre e próspera, sob o escudo da credibilidade dos EUA. De acordo com o Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, um ataque armado contra algum membro da aliança "é considerado um ataque contra todos os demais". Uma disposição suficientemente enfática para deter qualquer ataque soviético contra a Europa ocidental.

A credibilidade americana na Ásia teve um papel primordial na rápida, mas pacífica, ascensão da China, uma mudança de poder que raramente observou-se na história do mundo sem grandes conflitos. Pequim sabe do compromisso de Washington com a defesa de Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Austrália e Nova Zelândia. Os EUA foram o poder de equilíbrio, acalmando as tensões provocadas pela emergência da China. É a credibilidade do país que assegura a segurança global.

Nas Américas, a crise que começou em outubro de 1962, quando foram apresentadas ao presidente John F. Kennedy evidências de mísseis soviéticos em Cuba, a 145 quilômetros da costa da Flórida, foi um teste difícil para a credibilidade dos EUA.

Kennedy, como hoje o presidente Barack Obama no caso da Síria, pensou muito antes de declarar que "será a política do país considerar qualquer míssil nuclear lançado de Cuba contra alguma nação da região um ataque soviético contra os EUA, o que exigirá uma retaliação total contra a União Soviética". No fim, Moscou recuou.

A Síria não faz parte do império de Moscou, como Cuba, e não constitui uma ameaça similar à da crise dos mísseis cubanos para os EUA. Bashar Assad, porém, é um vassalo de Moscou e a Síria tornou-se um teste decisivo do poder americano.

Ninguém transmitiu a Síria como um legado perpétuo para a família Assad. Mas deixemos isto de lado no momento - e Hama, os 100 mil mortos dos últimos 30 meses e os mais de 2 milhões de refugiados. Não é fácil ignorar os crimes de um líder que massacra e dispersa seu próprio povo. No entanto, vamos tentar, porque uma questão global de enorme importância surgiu na Síria. Trata-se da credibilidade perene das "linhas vermelhas" americanas que foram a base da ordem mundial pós-1945.

Ano passado, Obama traçou uma "linha vermelha" sobre o uso de armas químicas na Síria. A França disse que o ataque químico de 21 de abril "só pode ter sido perpetrado pelo governo sírio", a mesma conclusão a que chegou o governo dos EUA. O gás, as munições, o alvo, a inteligência e a história, tudo aponta para o regime.

Quanto aos motivos, é caso de perguntar qual a razão que levou Assad a consentir com o massacre e a dispersão de vários milhões de cidadãos sírios. O secretário de Estado, John Kerry, referindo-se ao ataque, afirmou que a Síria tornou-se uma "obscenidade moral". E o principal responsável é Assad.

Os valores não podem dominar inteiramente a política externa. Talvez nem um quarto dela. Contudo, uma política externa americana desprovida totalmente de valores não é mais americana. A autoridade dos EUA está associada a sua estatura moral como um estado de direito comprometido com a liberdade. Está também ligada à credibilidade de sua palavra. Na Síria, os dois aspectos da política externa dos EUA estão unidos.

Esse é o cerne da questão em debate no Congresso. Como disse o senador John McCain, um "não" a uma resposta militar americana ao ataque químico será uma "catástrofe" para os EUA e sua credibilidade no mundo. Se Assad continuar zombando dos EUA, qualquer um poderá fazer a mesma coisa, até o Irã.

Minha resposta inicial à decisão de Obama de buscar apoio do Congresso e o longo atraso que isso acarretaria, foi porque ela revelava uma hesitação hoje conhecida. Mas reconsiderei minha análise: trata-se de um reequilíbrio necessário, pós-2011, em relação aos perigosos poderes irrestritos da presidência sobre os quais ele tem se referido, que comprometeram valores básicos que ele também invocou.

Interesses e valores americanos coincidem, exigindo que Assad responda por seus atos. Como a diplomacia é agora apoiada pela ameaça da força, isto pode ter algum resultado nos próximos dias. Mas duvido. Neste caso, o Congresso terá de assumir suas responsabilidades.

Três dias depois de eclodir a crise dos mísseis cubanos, o general Curtis LeMay, da Força Aérea, sugeriu que a recusa de JFK em ordenar um ataque imediato a Cuba "era tão prejudicial quanto o apaziguamento em Munique em 1938". Ele confundiu a deliberação de Kennedy com indecisão. A linha vermelha dos EUA foi então preservada. Como deve ser na Síria hoje. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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